Por Gustavo Martins-Coelho

Começo o «Consultório…» [1] desta semana relembrando as ideias fundamentais, que desenvolvi na semana passada: a de falta de finalidade na evolução; a existência de ancestrais comuns — espécies que deram origem a duas (ou mais) novas espécies; e a de que as características de cada indivíduo passam de pais para filhos, naquilo que é designado hereditariedade [2].

Posto isto, prossigo com o conceito de variação, a qual é fundamental à evolução. A variação não é mais do que uma palavra, para dizer que somos todos diferentes. Da interacção entre o nosso genótipo — ou seja, as características que são controladas pelos nossos genes — portanto, da interacção entre o nosso genótipo e o ambiente em que estamos inseridos, nasce o nosso fenótipo — o conjunto de traços que nos dão forma, enquanto indivíduos. E não há duas pessoas iguais!

Muitas destas diferenças resultam de diferenças genotípicas, ou seja, diferenças nos genes que nos compõem, que condicionam diferenças nas características determinadas por esses genes e na forma como eles interagem com o ambiente. Aos diferentes genes, que podem determinar formas diferentes do mesmo traço (por exemplo, a cor dos olhos), chamamos alelos.

A evolução acontece, através da substituição dum alelo por outro, ao nível de toda a população. Mas, para que isso aconteça, é preciso que haja formas alternativas do mesmo gene. Donde vêm, então, os alelos? De três fontes principais: mutações, recombinação e fluxo génico.

As mutações são alterações na sequência do ADN do genoma [3] duma célula [4]. Estas alterações ocorrem por acaso, fruto de erros no momento da divisão celular [5], quando todo o genoma é duplicado, de forma que ambas as células, que resultam do processo de divisão, contenham a mesma quantidade de material genético da célula que lhes deu origem. Quando uma mutação ocorre, podem advir três consequências: ou o gene deixa de funcionar, ou passa a fazer uma coisa diferente, ou não há qualquer efeito. O mais habitual é que o resultado duma mutação seja prejudicial, mas, quando corre bem, cria-se a tal variação: passa a haver dois alelos, que originam genótipos diferentes.

No nosso genoma, existem muitos genes duplicados, também fruto, em geral, de erros no momento da divisão celular. Muitas mutações ocorrem nesses genes duplicados, pois um dos genes mantém a função original e o outro adquire uma nova função. Assim, nada se perde. No entanto, é possível que surjam novos genes por mutação de pedaços de ADN que não continham, anteriormente, genes, ou a partir da duplicação de pequenas partes de genes existentes, que se combinam para formar um novo gene.

Passemos à recombinação. A recombinação é o que acontece quando os organismos, como os seres humanos, se reproduzem [6]  sexuadamente [7]. Cada pessoa tem 46 cromossomas, mas estes cromossomas são como que duplicados, ou seja, na prática, cada pessoa contém, não 46 cromossomas diferentes, mas 23 pares de cromossomas. Os cromossomas identificam-se por um número — do 1 ao 22 — ou por uma letra — o X e o Y. Então, cada pessoa tem dois cromossomas 1, dois cromossomas 2, dois cromossomas 3 e por aí fora até ao 22; e, se for mulher, dois cromossomas X, ou, no caso do homem, um cromossoma X e um cromossoma Y. Em cada um destes pares de cromossomas, um provém do pai e o outro da mãe da pessoa, ou seja, cada um de nós contém, em cada uma das suas células, 23 cromossomas do pai e 23 da mãe. Mas cada pessoa tem uma combinação diferente de cromossomas do pai e da mãe, pois estes 23 cromossomas não se deslocam em bloco. Se eu tiver dois filhos, um deles pode ter o meu cromossoma 1 que veio da minha mãe e o cromossoma 2 que veio do meu pai, enquanto o outro filho pode ter o cromossoma 1 que veio do meu pai e o cromossoma 2 que veio da minha mãe. Ou seja, estes dois irmãos não terão genes paternos em comum, nos cromossomas 1 e 2. Agora, faça as contas a quantas combinações de cromossomas são possíveis, tendo em conta que há 23 pares…

Para complicar ainda mais as coisas, os 46 cromossomas do filho não são exactamente iguais a qualquer dos 23 cromossomas do pai, ou da mãe, pois, no processo que conduz à sua inclusão no espermatozóide e no óvulo — um processo que se denomina meiose — ocorre um outro tipo de recombinação, a recombinação homóloga. A recombinação homóloga consiste, de forma resumida, numa troca de genes entre cromossomas, de modo que os cromossomas transmitidos aos filhos não são, na verdade, exactamente iguais a qualquer cromossoma dos pais.

Finalmente, o fluxo génico. O fluxo génico não é mais do que a passagem de genes duma população para outra, através da migração de indivíduos. Quando nós mudamos de terra, levamos os nossos genes connosco e introduzimo-los na população que nos acolhe.

É também possível o fluxo de genes entre diferentes espécies. É mais frequente entre bactérias e é um dos mecanismos pelos quais se adquire a resistência aos antibióticos [8], mas os vírus também permitem passar genes entre espécies mais evoluídas e distantes entre si.

Apresentados que estão os conceitos básicos, falaremos, para a semana, de selecção natural.

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