Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Os alicerces da ciência económica estão fragilizados. Desde a crise financeira, os desafios reais do nosso tempo: o aquecimento global, a instabilidade financeira e a escassez de matérias-primas obrigam os economistas a olhar para a História, a Filosofia e a Antropologia — e para a desigualdade. A investigação económica recente acabou de destruir sete mitos, a este respeito.

Mito 1: a desigualdade é boa para o crescimento económico

O raciocínio era simples: a desigualdade incentiva a excelência e o investimento e, portanto, mais desigualdade implica mais crescimento económico. Pelo contrário, diziam os economistas, uma sociedade mais igual obrigaria a pagar um preço. Mas os estudos recentes mostram que os países com menos desigualdade têm maior crescimento sustentável. Além disso, as pessoas ricas consomem uma parcela menor do seu rendimento, o que prejudica o emprego. A desigualdade também está associada a dívida mais elevada, pois a classe média tem de se endividar mais, para se manter perto do topo. Além disso, desigualdade excessiva torna mais poderoso o grupo dos super-ricos, que procura rendas fixas e pode significar menos dinheiro para a educação e redução da pobreza.

Mito 2: A riqueza escorre automaticamente pela escala social

A famosa curva de Kuznets diz que a desigualdade aumenta quando um país se industrializa e depois diminui novamente. Mas os dados dizem o contrário: entre 1949 e 1953, 90 % do aumento de rendimento nos EUA beneficiava os mais pobres; entre 2009 e 2012 esse grupo reduziu o seu rendimento, enquanto os 10 % do topo beneficiaram de todo o aumento do rendimento.

Mito 3: A desigualdade é um reflexo do mérito

O economista Thomas Piketty tornou-se mundialmente famoso pela sua fórmula: r > g, que significa que o retorno sobre o património foi, durante a maior parte da História, superior ao crescimento económico. É melhor viver de rendimentos do que trabalhar. A riqueza não escorre para baixo — acumula-se em paraísos fiscais. Isto pouco tem que ver com mérito.

Mas, além disso, uma grande parte da desigualdade de rendimentos é difícil de justificar com base em «mérito». O crescimento dos salários está, na maioria dos países, desfasado em relação ao crescimento da produtividade: são os lucros que aumentam, com o aumento da produtividade dos trabalhadores.

Mito 4: Os salários dos gestores de topo devem ser «competitivos»

Defendem-se os bónus exorbitantes como forma de atrair os melhores gestores. Mas, desde a crise, é lícito perguntar que talento tinham os banqueiros que levaram o sistema financeiro à beira do colapso. Se o seu salário fosse realmente baseado no mérito, deveria ser negativo. Aliás, estudos recentes nos EUA e nos Países Baixos demonstram que a correlação entre salários e bónus dos gestores, por um lado, e desempenho das empresas, por outro, parece ser negativa: as empresas com os gestores mais bem pagos saem-se relativamente pior. As recompensas elevadas, portanto, pouco têm que ver com as forças do mercado. Parece mais favoritismo.

Mito 5: A desigualdade é boa para a mobilidade social

A desigualdade não é má, pensam algumas pessoas, porque os países com grandes disparidades de riqueza atribuem muito valor à mobilidade social e as pessoas sentem-se inspiradas a subir a escada social. Mas sabemos agora que o oposto é verdadeiro: quanto maior a desigualdade, menor a mobilidade social. Quanto mais desigual é um país, mais a ascendência dum indivíduo determina o seu futuro.

Mito 6: Investir em educação é suficiente para reduzir a desigualdade

A educação é um dos principais motores do progresso, mas isso não significa que ela acabe com a desigualdade. Nas últimas décadas, o fosso entre alta e baixa qualificação tem crescido.

Mito 7: A Europa não tem de se preocupar com a desigualdade

Durante muito tempo, pensámos que este era um fenómeno tipicamente americano. Mas também aqui os pobres são mais pobres e os ricos mais ricos.

O maior equívoco

O maior equívoco sobre a desigualdade, incorporado na nossa linguagem, é de que haveria uma distribuição inicial da riqueza, através do mercado, e uma segunda «redistribuição», através da política. Essa última palavra diz tudo: o mercado é natural e a redistribuição artificial. A primeira distribuição é um dado, a redistribuição é uma questão de justiça ou inveja.

Mas, na realidade, também a primeira distribuição é completamente artificial. Também esta divisão é o resultado das nossas crenças, da nossa História, das relações de poder, do direito das patentes, do direito comercial e dos impostos sobre a riqueza das gerações anteriores.

Os economistas deve perguntar novamente a velha questão filosófica: que riqueza é merecida?

A resposta é muito mais do que um modelo matemático.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Rutger Bregman, publicado na revista «De Correspondent» [1].

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