Por Satoshi Kanazawa [a]

O princípio da savana, uma observação fundamental da psicologia evolutiva, afirma que o cérebro humano tem dificuldade em compreender e em lidar com entidades e situações que não existiam no ambiente ancestral. Uma experiência incrivelmente engenhosa ilustra de forma brilhante esta asserção.

Os seres humanos são uma espécie altamente social, cujos indivíduos confiam e dependem uns dos outros para a sobrevivência. Por esta razão, os seres humanos sempre viveram em grupo. Dado que os seres humanos são altamente dependentes dos outros elementos do seu grupo, o ostracismo — ser excluído dos seus grupos sociais e dos benefícios que advêm dessa pertença — sempre teve custos elevados, ao longo da história evolutiva humana; e a própria sobrevivência do indivíduo dependia de ser incluído num grupo.

Portanto, não é de todo surpreendente que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos psicológicos evolutivos que os levam a buscar um grupo e a evitar o ostracismo. Estudos de ressonância magnética funcional mostraram que ser alvo de ostracismo activa a mesma região do cérebro que se ilumina quando se experimenta dor física. Por outras palavras, os seres humanos estão desenhados para sentir dor quando são ostracizados. Dado o risco que ser excluído representa para a sobrevivência humana e o custo do ostracismo, isso faz todo o sentido, do ponto de vista evolutivo.

Mas e se o ostracismo não fosse prejudicial? E se, em vez disso, ser incluído fosse mau e ser excluído benéfico? Será que as pessoas, então, viriam a apreciar ser excluídas e a temer ser incluídas? Essa é a pergunta que motivou Ilja van Beest e Kipling D. Williams a realizarem a sua engenhosa experiência, que relatam no artigo de 2006: «When inclusion costs and ostracism pays, ostracism still hurts» [«Mesmo quando a inclusão prejudica e o ostracismo compensa, o ostracismo ainda dói»], publicado no Journal of Personality and Social Psychology.

Na sua experiência, eles usam uma variante dum jogo de computador para vários jogadores, chamado Cyberball. Neste jogo, três jogadores interagem virtualmente e atiram uma bola duns para os outros nos ecrãs dos computadores. Os jogadores nunca se encontram uns aos outros em pessoa; os outros dois jogadores que surgem no ecrã são pessoas virtuais, programadas para se comportarem de certa maneira, não outros seres humanos. Mas, é claro, os seres humanos não sabem disso durante a experiência. Esta experiência tem um desenho 2 (ganho vs. perda) x 2 (inclusão vs. exclusão).

Na condição de ganho, os indivíduos ganham 50 centavos sempre que a bola é lançada para si e eles a atiram de volta para um dos outros dois jogadores. Na condição de perda, os sujeitos perdem 50 centavos de cada vez que a bola lhes é lançada. Na condição de inclusão, os sujeitos estão totalmente incluídos no grupo de três pessoas e recebem um terço dos lançamentos. Na condição de exclusão, após os dois primeiros lançamentos, os sujeitos não recebem mais lances e simplesmente assistem aos outros dois jogadores trocar a bola entre si. O desenho experimental dos dois investigadores torna estes dois factores completamente independentes um do outro. Alguns indivíduos ganham dinheiro e são incluídos, alguns ganham dinheiro e são excluídos. Outros perdem dinheiro e são incluídos, outros ainda perdem dinheiro e são excluídos. De seguida, após o fim do jogo de Cyberball, os investigadores medem a satisfação e o estado de humor dos participantes.

A análise estatística mostra que os indivíduos ficam muito mais satisfeitos e felizes quando estão incluídos do que quando são excluídos, independentemente de estarem na condição de ganho ou de perda. Mesmo na condição de perda da experiência, os sujeitos referem estar muito mais feliz se estiverem incluídos no grupo, do que se forem excluídos. Eles ficam felizes e satisfeitos por serem incluídos no grupo, mesmo quando serem incluídos lhes custa dinheiro!

Durante todo o decurso da evolução humana, a exclusão sempre foi prejudicial e a inclusão sempre foi benéfica. Estas duas coisas sempre caminharam juntas, porque não havia psicólogos experimentais no ambiente ancestral, para manipular variáveis de forma independente. Não havia exclusão prejudicial e inclusão benéfica. O cérebro humano não pode, pois, compreender esses conceitos. O cérebro humano inconsciente e implicitamente assume que todo o ostracismo é mau, assim como assume que todas as relações sexuais potencialmente levam à reprodução (e é por isso que experimentamos prazer no sexo com contracepção).

A teoria microeconómica, ou qualquer outra teoria do comportamento humano que assuma que o comportamento humano é racional e baseado numa cuidadosa análise custo-benefício, não é capaz de explicar as descobertas notáveis de Ilja van Beest e Kipling D. Williams, de que os seres humanos ficam felizes por perderem dinheiro e tristes por ganharem dinheiro. Sem o princípio da savana, seria difícil explicar por que o ostracismo torna as pessoas tristes quando lhes é benéfico. Esta é uma das muitas razões pelas quais a psicologia evolutiva é superior à microeconomia como teoria do comportamento humano (mesmo quando não estamos a falar de diferenças entre os sexos) e por que devemos matar todos os economistas [2].


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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