Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Entre 2013 e 2014, o Canal do Imperador Guilherme, perto de Kiel, teve de ser encerrado duas vezes, devido a avarias, algo que nunca acontecera, nem mesmo durante as guerras mundiais, obrigando os navios a fazer um desvio que encareceu a rota para o Porto de Hamburgo. Estas avarias resultaram da redução da despesa com manutenção de € 60 milhões em 2012 para € 11 milhões em 2014.

Apesar de poder financiar-se a taxas de juro muito favoráveis, a Alemanha prefere o equilíbrio fiscal. Enquanto isso, as infraestruturas nacionais vão-se deteriorando e o país caminha para o declínio. A França pode parecer o doente europeu, mas as feridas alemãs são mais profundas, chegando até ao dogma mercantilista que glorifica a poupança pela poupança.

Graças ao segundo milagre económico alemão, desde 2005, a Alemanha confundiu a confluência de eventos extraordinários com ascensão permanente: não poderá continuar a viver da exportação de bens de capital para a China e os países emergentes, nem da compressão da Europa do Sul. O ministro Schäuble está errado, quando compara a economia alemã a um orçamento familiar.

Mas o milagre acabou. A economia alemã está a parar. O investimento privado está a diminuir desde o início dos anos 90 do século XX e o público parou há catorze anos. O crescimento económico da última década foi o 13.º da zona euro; o 156.º de 166 países no mundo inteiro nos últimos vinte anos. A única razão pela qual a Alemanha parece saudável é o resto da Europa estar moribunda. As contas alemãs apenas são equilibradas pelo desequilíbrio das dívidas soberanas europeias.

A produtividade alemã também não melhorou, apesar das reformas aplicadas (e que foram também impostas aos países do Sul da Europa, através da troika). O único resultado destas reformas foi a compressão salarial, fazendo os salários reais recuarem para níveis dos anos 90 do século XX e criando um proletariado de «mini-jobs», a sociedade mais desigual de sempre na História moderna da Alemanha e fazendo um quinto das crianças alemãs crescerem na pobreza. As exportações alemãs são subsidiadas à custa dos trabalhadores.

O crédito às economias do Sul da Europa, para estas comprarem produtos alemães, também acabará por secar, quando estes países estão também obrigados a equilibrar a sua própria balança comercial, empurrando e Europa para um vórtex deflacionário.

Por fim, os dividendos demográficos estão a acabar, na Alemanha; e a eles se seguirão os custos. A população activa alemã vai perder 200.000 trabalhadores na presente década. O índice de dependência de idosos vai quase duplicar até 2045.

Isto revela um grave falência das políticas públicas, que encorajaram o colapso da fertilidade, enquanto a falta de investimento completou o quadro. Dentro de cinco anos, as debilidades alemãs estarão à vista e o orçamento equilibrado alemão de nada vai servir; e, dentro de dez anos, a França será o poder dominante na Europa.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Ambrose Evans-Pritchard, publicado no jornal «The Telegraph» [1].

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