Por Gustavo Martins-Coelho

Ao longo das duas últimas semanas [1], temos falado dos fundamentos da evolução. Dissemos que a evolução sucede sem que haja um objectivo definido e dissemos que todas as espécies que existem hoje derivam doutras que existiram no passado, chamadas ancestrais comuns, e que as características de cada indivíduo passam de pais para filhos [2], mas depois explicámos que, apesar da hereditariedade, os filhos não são exactamente iguais aos pais e que os indivíduos são todos diferentes [2] e enunciámos as fontes dessa variação: as mutações, a recombinação e o fluxo génico [3].

Mas, mesmo que tudo isto seja verdade, ainda não explica por que há evolução. A evolução acontece quando a frequência dum dado alelo aumenta ou diminui na população, ou seja, o número de indivíduos contendo esse alelo no seu genótipo aumenta ou diminui, entre gerações sucessivas. Para que isso suceda, há vários mecanismos: a selecção natural, a deriva genética, a boleia genética e a mutação.

Comecemos, então, por falar um pouco da selecção natural. Para que haja selecção natural, tem de haver variação e essa variação tem de ser hereditária. Mas tem de haver mais. É preciso que nasçam mais indivíduos do que é possível sobreviverem, para que haja competição entre os indivíduos, pela sua sobrevivência. Assim sendo, como os indivíduos são todos diferentes, aqueles cujos traços lhes sejam favoráveis à sobrevivência, no ambiente em que estão inseridos, reproduzem-se mais e, como esses traços são hereditários, transmitem-nos à descendência. Deste modo, a geração seguinte terá mais indivíduos com os tais traços favoráveis à sobrevivência naquele ambiente, porque os indivíduos da geração anterior que tinham os mesmos traços tiveram mais descendência, do que indivíduos com outros traços não tão favoráveis naquele ambiente.

Tenho tido sempre o cuidado de acrescentar o ambiente, em cada frase sobre traços favoráveis. A razão é simples: dizer-se que um traço é vantajoso, ou favorável, não é uma característica absoluta desse traço; depende do ambiente em que o indivíduo se encontra. Se o ambiente se modificar, aquele traço pode deixar de ser favorável. Um exemplo disto que acabo de dizer é a lactase — a enzima [4] que degrada a lactose do leite —, de que falei há algumas semanas [5] e que deu ensejo a esta série de crónicas sobre a evolução. Todos os mamíferos — o que inclui os seres humanos — consomem leite — materno — na primeira infância, mas depois deixam de consumir. Então, para os seres humanos, produzir lactase em adultos não era vantajoso, até ao dia em que começámos a consumir leite de animais depois de deixarmos de ser amamentados [6]. Nesse dia, o nosso ambiente modificou-se: deixou de ser um ambiente onde apenas havia leite na infância, para passar a ser um ambiente em que havia leite também na idade adulta. Por efeito duma mutação, passou a haver variação dentro da população: havia pessoas que tinham lactase apenas enquanto jovens e passou a haver indivíduos que mantinham a lactase no seu suco intestinal também em adultos. É preciso notar que esta mutação foi devida ao acaso e nada teve que ver com a introdução do leite no regime alimentar do adulto; como eu disse, a evolução não se faz com uma finalidade. Mas aconteceu e conferiu uma vantagem a determinadas pessoas, que passaram a beneficiar melhor das qualidades nutritivas do leite do que as restantes pessoas e, por isso, conseguiram obter maior sucesso reprodutivo, ter mais filhos e passar-lhes o gene que lhes permitia produzir lactase na idade adulta. E assim se espalhou esse gene por toda a população, fazendo com que, geração após geração, mais pessoas sejam capazes de digerir a lactose e a intolerância à lactose seja cada vez menos frequente. Claro que este é um processo tão lento, que nós, por muito que tentemos, não conseguimos visualizá-lo à nossa volta. Mas ele aconteceu e é provável que continue a acontecer.

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