Por Noémia Lemos Costa

A História chegou ao fim?

Será que atingimos o auge?

A Humanidade, durante os seus já longos 150 mil anos (mais coisa, menos coisa), caminhou incessante e imparavelmente rumo ao ponto em que nos encontramos. Começamos como qualquer outro animal, obedecendo a instintos: alimentar-nos, defender-nos, reproduzir-nos. Mas tínhamos esta capacidade fantástica de ver e compreender o que se passava à nossa volta. Com esta capacidade, fomos mudando o ambiente que nos rodeia. Fomos produzindo ferramentas e com elas fomos capazes de caçar mais. Compreendemos o ciclo de vida das plantas, semeámos e fomo-nos fixando durante mais tempo num determinado sítio, para as podermos colher. Aprendemos a deixar mensagens sobre acontecimentos importantes e isso fez-nos desenvolver a escrita e a arte. As sociedades foram prosperando e crescendo, foram-se organizando em sistemas de domínio mais alargado, nasceram os impérios. Mas as sociedades não param de evoluir; as pessoas não param de aprender nem de se reinventar. É a tal capacidade de ver e compreender que não desaparece. Em todos os períodos da História, encontramos a ordem vigente e os opositores à ordem vigente. E é desta disputa que vai surgindo a evolução.

Nos capítulos mais recentes deste livro que é a História da Humanidade, temos visto exemplos claros desta evolução. Ainda há duzentos anos, a Europa era dominada por regimes monárquicos. Mas surgiu Napoleão e depois o Congresso de Viena. Veio 1845 e a natureza decidiu não ser generosa com as colheitas em toda a Europa. A vida mudou, as pessoas não tinham o que comer. Estes momentos são marcantes nas sociedades. Quando uma crise surge, faz-nos repensar tudo o que levou àquele ponto. As desigualdades, as injustiças, as más distribuições de recursos. Chamam «as Revoluções de 1848» ao ponto em que inflamou a chama que levou à mudança de paradigma na Europa. Os regimes representativos. E a esperança, a euforia, tomaram conta de todos. Só que o Velho Continente ainda não estava preparado para aquela nova ordem. Veio assim o período mais negro da História. Período em que todas as revoluções eram feitas à custa de mortes. Foi a primeira guerra mundial, foi a guerra civil espanhola, e por fim a segunda guerra mundial. Foram, de facto, dezenas de anos passados em clima de guerra e que deixaram feridas profundas em todo o mundo dito ocidental. Na sequência destas feridas e de todos os traumas, surgiu um novo projecto: o duma Europa em paz.

E assim chegamos a hoje. Estamos inseridos numa sociedade diferente de todas as outras. A evolução tecnológica, acelerada durante o século XX, sobretudo devido às duas grandes guerras, veio alterar por completo a forma como vivemos. Estamos permanentemente a receber informação, sem que tenhamos desenvolvido a capacidade de a filtrar convenientemente.

A História da Humanidade foi também governada por mercados. Desde que existem sociedades, existem trocas comerciais, pois a produção de bens não é equitativa por todo o território e assim surge a necessidade de distribuí-los de forma que todos a eles tenham acesso. Mas o fundamento destas trocas comerciais havia sido sempre, até certo ponto, palpável. Primeiro eram trocas de bens, depois passou a existir a moeda e, portanto, o valor da moeda traduzia o valor dos bens. Hoje, este valor não está indexado a nenhum bem palpável. E por palpável quero dizer um bem que seja absolutamente indispensável à sobrevivência e, portanto, tenha valor derivado desse facto. Ao invés, é totalmente controlado por mecanismos especulativos, que se baseiam em tendências e previsões. Vivemos ainda o tempo em que se acredita que esta é a única forma de regular as trocas comerciais.

Esta ideia de falta de futuro introduziu-se na sociedade em absoluto durante a crise económica que (ainda) passamos. Tornou-se claro que há limites, que os Estados não podem esbanjar o dinheiro que não têm. Tornou-se claro o falhanço da social-democracia e tornou-se também claro o falhanço da união de todas as sociedades europeias. Todos estes falhanços conduzem a uma conclusão imediata: não podemos dar-nos ao luxo de perseguir utopias.

E é justamente esta conclusão que é perigosa. Porque podemos cair no erro de confundir utopia com evolução. Esta é uma crise profunda, que levou à alteração de valores e de prioridades e criou um sentimento de fatalidade generalizado. Em nenhuma fase da História as sociedades cessaram de evoluir, mas em todas as fases da História as pessoas se interrogaram sobre se seria possível evoluir.

Tal como em 1845, quando as pessoas não têm o que comer, vêem as coisas doutra forma. E, tal como em 1845, podemos estar à beira duma efectiva mudança, que necessariamente decorre de uma crise. Portanto, não, a História não acabou. Podemos estar no final dum capítulo, mas com certeza outros capítulos se seguirão, pois os povos nunca deixarão de ver e compreender, para com isso perceberem o que está errado com o seu presente e inventarem o seu próprio destino.

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