Por Gustavo Martins-Coelho [a]

A desigualdade na distribuição dos rendimentos é muito maior do que se pensa. Segundo um estudo, a generalidade das pessoas defende que há desigualdade a mais, mas a desigualdade salarial real é ainda muito superior à que é percepcionada pela pessoas, a qual, por sua vez, fica distante do cenário considerado como ideal.

Portugal não foge à regra: segundo o mesmo estudo, as pessoas defendem que a diferença de salários entre gestores e trabalhadores não qualificados deveria permitir aos primeiros ganhar cinco vezes mais do que os segundos, mas a realidade a que se assiste nas grandes empresas é a de que, em média, os administradores ganham 53 vezes mais. Apesar disso, Portugal não é o país com um maior diferencial entre a desigualdade desejada e a realidade. Nos Estados Unidos, os inquiridos dizem que o ideal seria os gestores ganharem 6,7 vezes mais do que os trabalhadores não qualificados, apostam que a diferença praticada é de trinta vezes mais e, na realidade, os gestores ganham 354 vezes mais do que os trabalhadores não qualificados. Na Alemanha, a diferença ideal é 6,3 vezes, mas na realidade é 147 vezes. Na Dinamarca, a diferença ideal é a mais baixa — duas vezes —, mas os salários dos administradores superam em 48 vezes os dos trabalhadores.

O prémio Nobel da Economia Paul Krugman diz que a diferença entre a percepção e a realidade se deve ao facto de os mais ricos entre os ricos serem virtualmente «invisíveis» para o resto da população, uma vez que estão totalmente afastados das vidas das pessoas comuns. É essa «invisibilidade» que evita que o protesto contra a desigualdade crescente seja maior. Já o economista francês Thomas Piketty acha que este factor é secundário, perante a questão mais estrutural dos ganhos de capital acima do crescimento da economia.

De qualquer forma, a conclusão mais importante do estudo é que o desejo de menor desigualdade é transversal a todos os países analisados e a todos os tipos de inquiridos, independentemente de serem de esquerda ou de direita. Em todos os países, a desigualdade considerada ideal é sempre menor que a desigualdade percepcionada como verdadeira e ainda muito mais pequena do que a desigualdade real.

Esta opinião quase unânime deveria ter tradução em termos políticos. Os Governos deveriam impor limites aos ganhos dos líderes empresariais. Os bónus auferidos no auge da crise por alguns gestores, particularmente no sector bancário, não podem voltar a ser prática corrente. A política fiscal tem de praticar taxas adicionais aos rendimentos mais elevados.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Sérgio Aníbal, publicado no jornal «Público» [1].

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