Por Gustavo Martins-Coelho

Ideias soltas, ideias à solta… Fazem cada vez menos sentido. Procuro palavras iguais, que sirvam de cola, mas tudo está esfrangalhado. Tanto que haveria para dizer, mas a noite cai sobre mim e é chegada a hora de dizer adeus. A ti e ao mundo. Adeus!

Mentiste-me. A torrada não cai sempre com a manteiga para baixo: só o faz 62 % das vezes, segundo um estudo científico. Ainda bem que há pessoas que se dedicam a estudar os verdadeiros problemas da humanidade!

O que tenho para dizer cabe em três palavras: desisti de ti. Está dito. Está o assunto resolvido. Podemos ir para casa.

Ah! Não me perguntes porquê, porque é óbvio. É impossível que não tenhas ainda percebido que nutro por ti um sentimento que vai muito além da amizade. Talvez não além. Há algo mais puro, belo e humano do que a amizade por outro ser humano? Podemos hierarquizar sentimentos? E, se pudermos, por que inferiorizaríamos a amizade, o único sentimento verdadeiramente desinteressado? Não! Não nutro por ti um sentimento que vai além da amizade. O meu sentimento toma um sentido diferente desta, mas nela se baseia e dela se faz acompanhar.

Mas não nos percamos e falemos do que interessa! Tu e eu. Ou só eu. Porque só estou e só estarei. Sem ti. Apesar de necessariamente saberes, porque em nenhum momento o ocultei, sempre agiste, sempre me falaste, sempre me olhaste como se de nada soubesses, como se nada visses. Esperas que acredite em tamanha ingenuidade? Desespera!

Eu acho que sempre devemos deixar as coisas acontecerem. Se for para ficar arrependido, que seja por não terem acontecido como queríamos; não por não terem acontecido de todo. Não há escolhas erradas, apenas consequências. Mas não posso fazer-te assumir as consequências das minhas escolhas.

Fica com ele.

A l’égard de celui qui vous prend votre femme, il n’est de pire vengeance que de la lui laisser — disse Sacha Guitry; e depois (ou talvez antes) acrescentou: —  Citer les pensées des autres, c’est regretter de ne pas les avoir trouvées soi-même.

É verdade: lamento não conseguir ter grandes pensamentos. Ou de não conseguir vertê-los em grandes palavras, o que vai dar no mesmo. Mas mesmo as verdades do senhor de La Palisse têm de ser ditas.

Não é não. Talvez é talvez. Se queres dizer não, não digas talvez.

Sim, isto é tão óbvio que é justo considerar que não merecia ser dito. Mas cada vez mais me parece mesmo necessário que alguém diga o óbvio.

Por exemplo, que o sinal vermelho significa:

— Não podes atravessar a rua.

Não significa:

— Olha com atenção para ambos os lados e, se não vierem carros, atravessa a rua a correr.

Tergiverso. Dizia-te que, não sendo eu um ser totalmente desprovido de inteligência, compreendo o significado dessa tua ingenuidade intencional e por isso te digo hoje que desisto desta batalha perdida. Não tenho a quixotesca vocação de perseguir moinhos de vento. Assim termina o que nunca começou.

O meu sentimento tomou um caminho diferente e os sentimentos são vias de sentido único. Não é possível voltar atrás e escolher o outro caminho, na bifurcação. Não quero, não sei, não posso ser teu amigo. Quero. Mas não sei e não posso. Quero e lamento; perdoa-me essa falta. Mas, tal como tu não és capaz de me dar o que em ti desejo, eu também tenho as minhas limitações no tipo de mim que posso oferecer-te.

Sei que poderia mudar o teu mundo; dar-lhe mundos novos que nem ousaste sonhar. Mas o tempo em que embarcávamos indigentes à força nas catrinetas a caminho d’além-mar já acabou; agora, só desejando com toda a alma de pode ser encantado.

Já dizia a minha mãe que quem nasceu para cinco não chega a dez. Nem mesmo se lhe derem os cinco que faltam. Mas, «dar solamente aquello que te sobra, nunca fue compartir sino dar limosna, amor, si no lo sabes tú te lo digo yo» [1].

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