Por Gustavo Martins-Coelho [a]

No final de 2014, a capa do Público dizia que o Hospital Amadora-Sintra trinta euros por hora não chegavam para atrair médicos. Ocultava-se que esse valor é pago às empresas intermediárias e não aos médicos, que recebem muito menos, mas a maioria das pessoas apenas lê títulos, pelo que a intenção de enganar era deliberada. Por outro lado, não se dizia que esse valor era referente a 24 horas de trabalho em serviço de urgência. Contas feitas, descontados o lucro do intermediário e os impostos, o médico recebe 288 euros por 24 horas de trabalho contínuo, desgastante e estressante. Um mecânico ganha mais, com menos trabalho, cansaço e responsabilidade! Pela mesma altura, outro diário titulava na capa: «Farmacêuticas gastam 60 milhões com médicos». Falso: esses apoios são gastos, para além dos médicos, em sociedades científicas, associações de doentes, farmacêuticos, estudos de investigação, etc. O jornal pretendeu, deliberadamente, passar a mensagem de que o financiamento se destinava a manter a promiscuidade entre indústria e médicos. Estes são apenas dois exemplos de como, regularmente, saem notícias na comunicação social, cujos títulos são construídos propositadamente para afectar a honra dos médicos junto da opinião pública. Porquê?

O Ministério da Saúde liderado pelo Paulo Macedo conduziu uma campanha de descredibilização dos médicos, para ocultar a responsabilidade do ministério na diminuição da qualidade do SNS. A congestão das urgências hospitalares é inaceitável, mas a notícia do Público ignora que foi o Ministério da Saúde que não permitiu ao Hospital Amadora-Sintra contratar atempadamente os profissionais de que necessitava para responder ao afluxo de doentes. Omite também as causas profundas da desorganização das urgências hospitalares: a redução do horário de abertura dos centros de saúde, o bloqueio da reforma dos cuidados de saúde primários, a proibição dos hospitais contratarem directamente médicos em prestação de serviços e a ausência de cláusulas de salvaguarda dos dias festivos nos contratos com as empresas intermediárias. Estas empresas falham repetida e impunemente, sem que ninguém tome medidas. O outro jornal diário omitiu que, se não fossem os apoios da indústria farmacêutica, a actualização e a investigação científica dos médicos e doutros profissionais seriam gravemente afectadas, com prejuízo dos doentes, e as sociedades científicas e associações de doentes teriam de fechar as portas, porque o Ministério da Saúde não disponibiliza apoios suficientes.

O jornalismo sem ética e sem independência deveria ser uma excepção, combatida activamente por todos os jornalistas, tal como a Ordem dos Médicos procura fazer no seio da sua classe. Este ataque permanente aos médicos retira as atenções dos verdadeiros culpados pelas perdas e insuficiências da Saúde em Portugal.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do José Manuel Silva, publicado no jornal Público [1].

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