Por Gustavo Martins-Coelho

Gustavo: Hoje, fazemos uma pausa no tema que nos tem ocupado ultimamente — a evolução das espécies [1] — porque anteontem foi o Dia Mundial da Saúde Oral. Então, hoje tenho aqui comigo a Rita Queirós, que é higienista oral do Agrupamento de Centros de Saúde (Aces) do Baixo Vouga. Antes de mais, quero dar um agradecimento especial à Rita, que, mesmo estando doente, aceitou juntar-se a mim, para falar de saúde oral, a propósito deste Dia Mundial. Rita, começo por te lançar uma provocação: para que serve o Dia Mundial da Saúde Oral?

Rita: Este dia surgiu como forma de chamar a atenção para a saúde oral. Este dia internacional celebra os benefícios de ter uma boca saudável e alerta para o facto da higiene oral ser o meio primordial de prevenção para toda a população.

Gustavo: Cada ano, o Dia tem um tema; este ano, qual é?

Rita: «Tudo começa aqui! Boca Saudável, corpo saudável!» Infelizmente, na nossa sociedade, é frequente as pessoas dissociarem a boca do restante corpo, ou seja, há preocupação — e dinheiro — para ir à maioria das especialidades médicas, mas, quando se fala em saúde oral, é caro e pode ser deixado para depois, pois a  prevenção ainda não é uma prioridade.

Gustavo: A questão da falta de importância dada à prevenção não é um problema exclusivo da área da saúde oral. Mas, continuando focado nessa área e no tema deste ano do Dia Mundial da Saúde Oral, queres esclarecer em que medida a saúde oral se relaciona com a saúde do resto do corpo?

Rita: O nosso corpo é um todo, em que tudo está interligado; sendo assim, é lógico que as doenças orais possam interferir e potenciar outras doenças e até vir a complicá-las ainda mais, tais como as doenças cardíacas, a diabetes, alguns cancros, entre outros.

Gustavo: Então, uma pessoa que queira cuidar da sua saúde oral, como parte da sua saúde e do seu bem-estar integral — em que medida tu podes ajudar?

Rita: No Centro de Saúde, eu atendo em consulta as crianças com direito a referenciação para higienista oral, do programa dos cheques-dentista [2]. Além desta população, atendo também, segundo o modelo organizacional em saúde oral da Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados do Aces Baixo Vouga: crianças dos 4 aos 18 anos sem direito a cheque-dentista; portadores de deficiência cognitiva; adultos sem direito a Cheque-dentista, com doença crónica que atinja também a boca; faço a triagem para a consulta de medicina dentária; e os doentes enviados pelo médico dentista.

Gustavo: Este modelo organizacional é exclusivo da região de Aveiro, correcto?

Rita: Para já, sim; mas penso que tem potencial para, futuramente, ser replicado noutras zonas do país. Com este modelo, conseguimos abranger pessoas que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a cuidados de saúde oral no Serviço Nacional de Saúde, sendo que teriam de recorrer ao sector privado, o que acarretaria custos muito superiores para a sua bolsa.

Gustavo: Então, deixa-me voltar um bocadinho atrás: relativamente aos cheques-dentista e às referenciações para higienista oral, qual é a adesão das pessoas a este benefício que o Serviço Nacional de Saúde lhes dá?

Rita: No caso das crianças, a taxa de adesão anda um pouco acima dos 50 %…

Gustavo: Espera lá, Rita: estás a querer dizer que cerca de metade das crianças que podia ir gratuitamente ao dentista não aproveita essa oportunidade?!

Rita: Não, estou a dizer que os pais dessas crianças não as levam!! Pois, quer o cheque-dentista, quer a referenciação para higienista oral têm de ser assinados pelo encarregado de educação. No que respeita aos outros cheques-dentista, o cenário é ainda mais desolador…

Gustavo: Desculpa interromper-te: queres explicitar quais são os outros cheques-dentista?

Rita: Sim, falo dos cheques-dentista para grávidas seguidas no Serviço Nacional de Saúde, idosos com Complemento Solidário e doentes com infecção pelo VIH.

Gustavo: Rita, o nosso tempo chegou ao fim. Agradeço-te imenso a tua disponibilidade e desejo-te as melhoras.

Rita: Obrigada!

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