Por Hélder Oliveira Coelho

Sou um homem curioso. Talvez não tão curioso como quando em criança, mas, ainda assim, um questionador nato. Como raras vezes falo sobre o que não sei, gosto de me fundamentar: ou encontro matéria escrita que possa sustentar o que penso, ou faço-me rodear de quem saiba mais do que eu, para me ver esclarecido. Admitir que não sei nunca foi motivo de vergonha para mim. Não saber não é um pecado. Não querer saber é que talvez possa ser. Um sujeito pode lá ser condenado por não saber? O mesmo pode não ser verdade, se o sujeito recusar o conhecimento que lhe é veiculado.

Voltando à curiosidade! Fui ao dicionário, o tal laranja (a 6.ª Edição, de 87, da Porto Editora) [1], para ver esclarecida uma dúvida, que me acompanha há largos tempos. O que nos deve ocupar: assuntos ou temáticas? Parece daquelas perguntas ao estilo de: «de que cor é o cavalo branco de D. José?» Contudo, bem vistas as coisas, haverá mais assunto nesta temática, do que as temáticas possam fazer parecer. Diz, pois, o meu dicionário que — assunto: substantivo masculino, objecto, ponto, matéria de que se trata, tema, motivo. Fiquei, portanto, esclarecido quanto a este ponto, embora na matéria de que se trata tenha descoberto que já não há substantivos. Talvez o motivo seja a falta de masculinidade dos homens pensadores (para não usar uma expressão popular, do agrado do avô, que envolvia uma metáfora com frutos, vulgo tomates, e a respectiva localização dos mesmos, no simbolismo do baixo ventre masculino). Páginas adiante, encontramos — temática: substantivo feminino, o conjunto dos temas de uma composição.

A ciência tem dito que, por entre as demais diferenças de género que trazem qualidade superior aos indivíduos, dá-se, respectivamente, ao homem a inteligência prática, à mulher a multifuncionalidade. Trocado por miúdos, eu faço apenas uma coisa de cada vez, para que saia bem feita; a minha irmã fará várias, com igual ou superior qualidade.

Ora, quem tem estado atento a discursos de gente importante, aqui e além das serras, já terá dado conta de que já ninguém discute assuntos. Agora, só falamos de temáticas! Afinal, a crise nacional está aí. Algo tão simples de ver. Basta um bom dicionário!

A política e as decisões importantes deste País têm sido tomadas em larga escala por homens, sabida é a quase incipiente participação política no feminino. Ora, se os homens têm discutido temáticas, que, por definição, são um conjunto de assuntos, e se a ciência diz que os homens só são capazes de resolver um problema à vez, os discursos terminam sem que nada se resolva — claro está! Se deixássemos de compor temáticas e passássemos a discutir assuntos, começá-los, desenvolvê-los e resolvê-los, o mundo estaria muito melhor! Somos parte integrante do mundo, por conseguinte a nossa cidade é também o mundo.

Voltando ao dicionário — porque eu gosto de objectivar, tanto como possível, as minhas teorias. O valor que atribuímos às palavras é mais do que uma necessidade de entendimento. É a materialização dos signos que nos regem, a representatividade da nossa cultura. Substantivo, diz o laranja tratar-se dum adjectivo que designa substância. Na gramática, como já referi, é o nome que designa pessoa, coisa, animal, acção ou estado ou qualidade em abstracto.

Então importa saber o que é a substância. O laranja responde que é o que constitui o suporte de qualidades susceptíveis de mudança e não é ele próprio suportado por outra coisa, mas existe por si mesmo; o mais essencial e importante.

Talvez não seja irrelevante a troca que se faz nos discursos. Efectivamente, discutir temáticas é não discutir nada. Trabalhar assuntos é caminhar em direcção da substância e materializar o discurso em acção. No fundo, o trabalho não será mais do que um produto da acção, da potência pelo tempo. Física pura. Aplicar as leis da física ao quotidiano e abrir um dicionário, de quando em vez, resolve problemas. A este propósito, resolver problemas, claro está, aconteceu há não muitos dias na Bendada, concelho do Sabugal, distrito da Guarda, um encontro para discutir a desertificação das aldeias. Que futuro terão as nossas aldeias. Entre o muito que se falou, realço, antes de mais, a iniciativa. Depois, na posição humilde que a ignorância me roga, faço um pequeno resumo do que não entendi. Entre homens de poder, autarcas, deputados, secretários de Estado e até um ministro, destacava-se a voz do povo que precisava de ver os seus problemas diários solucionados. Eu confesso ter dificuldade em encontrar as soluções para os problemas do povo, mas tenho alguma facilidade em desconstruir os discursos dos homens de poder. O povo nem sempre conseguirá, porque o povo sabe a importância de discutir assuntos, de os resolver e de produzir trabalho. Já quanto às temáticas, o povo, como eu, que sou homem, não resolvem muitos problemas em conjunto, resolvem-nos à vez, mesmo que em simultâneo, por estranho que pareça.

Para começar um tema, é importante defini-lo. Um problema, primeiro, identifica-se; depois, resolve-se. Se não somos capazes de identificar o problema, por certo discutir temáticas é uma perda de tempo. Definir aldeia, vila, cidade, país — mundo, que seja — ao abrigo dos conceitos do século XIX é um grave erro. Eu estou à vontade para o dizer, uma vez que o que uso para definir conceitos é um livro laranja de meados do século XX, neste tempo que já é do século XXI. Eu posso dar-me ao luxo de fazer a gestão do quotidiano, de acordo com as minhas pequenas crenças. Contudo, eu não sou político. O que me distingue deles? A responsabilidade. A minha é grande, mas não é a de elaborar um plano. Políticos que façam apenas a gestão do quotidiano não são políticos. São maus gestores. Por quê? Porque, se ao funcionário médio cabe fazer funcionar, ao político cabe ir para lá disso, cabe projectar e antever, cabe ir à substância. Eu posso avaliar o mundo com base nas premissas com que fui educado. Um político deve apresentar mais do que isso, precisamente porque tem a responsabilidade que advém do voto democrático. Um político que olhe para a realidade e a analise com base no passado, sem equacionar a probabilidade de que futuro quer, então faz um péssimo serviço à comunidade que deveria servir. O mundo, a aldeia, a cidade são hoje mais e diferentes do que eram quando eu nasci. Quem não entendeu isso não passa dum gestor do quotidiano. É útil como tal, mas não como político.

Poderá o mundo definir-se com fronteiras? É uma nesga de terra que nos define? É a cultura que queremos passar? E que cultura nos é transversal? A do vinho? A da Coca-Cola? Qual é a nossa identidade efectiva? Faço as perguntas, não sei as respostas. Mas sei que o mundo que o meu avô definia é muito diferente do mundo em que eu vivo.

O que é o interior? Interior é Freixedas? Ou interior é Zurique? Se o referencial for o mar, não conheço costa marítima em Pinhel, nem tão pouco em Zurique. Ambos têm montanhas povoadas de gente com idade. Portanto, onde é o interior? Talvez o interior seja mesmo o que ocupa a massa cinzenta de quem tem as palas, para usar mais uma vez um adejo popular. O jumento até cumpre o seu trabalho, não sabe é outros caminhos. Queremos o máximo de acção com o mínimo de esforço. Mas não sem esforço nenhum. Se aguardarmos apenas que o tempo passe na equação, mas a acção ou a potência continuar a ser zero, o produto resultante nunca será trabalho, antes o nulo.

Se a minha gente sabe de vacas, mas não sabe como as vender, então arranjem-me quem saiba vender vacas e todos ganhamos com isso. Falo do sector primário, mas o mesmo é valido para indústria e os serviços. Sentem à mesa quem pode, quem sabe e quem quer, vulgo empresários, políticos e ciência. Há escolas, há matéria-prima. Não discuto se é muita ou pouca. No mundo do meu avô, precisavam de dez homens e duns tantos carros, de força animal, para lavrar um campo. Hoje, basta-me um homem e tractor. No entanto, a perícia do manuseamento duma máquina obriga a um estudo que vai para lá do feno, pelo que o ensino superior é um pólo fundamental. Ao poder cabe reunir as condições, aos empresários investir, às escolas formar. Está definida a tríade. Quem o perspectivar de forma diferente que o diga, mas que não propague o conformismo e o mofo por quem quer produzir mais do que o zero.


Partiu, tinha exactamente a idade que eu hoje tenho. Partilhávamos a formação de base e o gosto para arte e a música. Falo do muito querido Carlos Paião. Deixou para uma diva da música mundial uma canção, cuja temática reunia muito da portugalidade: Amália, à data uma vedeta quase em fim de carreira. Consagrada e elevada ao cargo de mito, pegou na letra irónica do compositor e — pasme-se — cantou-a.

«Ó senhor extraterrestre», onde o passado e o que há-de vir tão bem casam, pelas mãos do jovem e irreverente Carlos Paião e a alma e voz da rainha Amália.

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