Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Uma das principais causas apontadas para a crise dos países menos desenvolvidos da Europa Ocidental é o aumento dos custos salariais, desde a criação do euro. A credibilidade da moeda única teria levado a um influxo de capitais para esses países, criando inflação e aumento dos custos do trabalho, fazendo os países do Sul da Europa perder competitividade face aos do Norte da Europa. Para ultrapassar a crise, era então preciso efectuar cortes salariais.

Sendo certo que os países do Sul tiveram um crescimento rápido dos salários depois da entrada no euro, ao contrário do que se pensa, foi nestes países que os custos reais do trabalho menos aumentaram, quando comparados com a produtividade. Portanto, a principal causa da crise nos países do Sul não foi o aumento desmedido dos custos do trabalho.

Os países do Sul, relativamente aos países do Norte, tiveram foi um maior aumento do investimento em capital e um menor aumento da intensidade tecnológica; ou seja, seguiram um modelo de desenvolvimento baseado no investimento em capital em vez do investimento em tecnologia. Ora, só o investimento em tecnologia pode conduzir a um crescimento económico sustentável no longo prazo, sobretudo quando o investimento em capital se centra principalmente em capital não produtivo, como sucedeu em muitos países do Sul.

É pois, legítimo questionar, não só o corte nos custos de trabalho dos programas de austeridade, mas também os critérios de Maastricht, que se focam apenas na convergência nominal dos preços (inflação, taxas de juro, e estabilidade da taxa de câmbio) e no equilíbrio das contas públicas. A convergência real exigiria que se tivesse também focado no PIB per capita, na taxa de desemprego, na produtividade do trabalho e nos índices de preços comparados. Ao desvalorizar essa convergência real, que se obtém principalmente através do progresso tecnológico, os critérios de Maastricht podem ter incentivado os países do Sul a seguir um modelo de desenvolvimento baseado no investimento em capital.

Por outro lado, os fundos europeus foram principalmente direccionados para investimento em capital, servindo para enviesar ainda mais o modelo de desenvolvimento dos países do Sul para o investimento em capital, em detrimento do investimento em tecnologia. Os fundos europeus deviam ter dado mais prioridade à convergência real, através do investimento na educação, na inovação tecnológica e na produtividade do trabalho, em vez de infraestruturas.

Em suma, os países do Sul da Europa têm seguido nas últimas décadas um modelo de desenvolvimento baseado no investimento em capital em detrimento do investimento em tecnologia, tendência exacerbada pelo euro e pelos fundos estruturais. Este modelo de desenvolvimento foi em parte responsável pela crise que os países Sul ainda hoje atravessam, visto que os custos de trabalho nestes países tiveram nas últimas décadas uma redução em relação aos países do Norte da Europa. Só com um modelo de desenvolvimento baseado no progresso tecnológico os países Sul poderão alguma vez aspirar a um crescimento sustentável no futuro.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original do Armando Pires, publicado no jornal «Público» [1].

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