Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do David Marçal e do Carlos Fiolhais, publicado no jornal «Público» [1].

A defesa da homeopatia tem-se feito através de argumentos de autoridade e dum jargão aparentemente científico, mas sem significado.

Os argumentos de autoridade limitam-se a dizer que devemos acreditar na homeopatia, porque há pessoas importantes que acreditam e porque as que se opõem não são «cientistas a sério». Só que a ciência não se baseia em títulos nobiliários; baseia-se em provas experimentais, que possam ser verificadas.

O argumento clássico da homeopatia em crianças e animais, cujas aparentes melhorias não podem ser explicadas pelo efeito placebo é mera retórica: e quem avalia tais melhorias não são os próprios, mas os donos dos animais ou os pais dos bebés, todos eles adeptos da homeopatia.

Há também os sítios da Internet. Mas a literatura científica não são páginas avulsas, ou um ou dois trabalhos escolhidos a dedo, pois há disparates em todo o lado. Na medicina, a prova científica faz-se por revisões sistemáticas da literatura, que, de modo transparente, analisam todos os ensaios clínicos sobre um assunto. É esta a exigência para a medicina baseada na ciência, incluindo a homeopatia. Se a homeopatia quer ser uma ciência alternativa, então deve tratar doenças alternativas em pacientes alternativos e cobrar dinheiro alternativo. Mesmo o artigo publicado numa revista científica, que descreve a «memória da água», pressuposto fundamental da homeopatia, é uma fraude, desmascarada no mês seguinte à sua publicação.

A homeopatia também não é comparável à vacinação: nas vacinas, há algo com efeito fisiológico — vírus ou bactérias, que visam treinar o sistema imunitário. Aplica-se a doenças infecciosas e sabemos bem por que funcionam. A homeopatia não funciona, porque não há maneira alguma de poder funcionar.

Talvez venha a surgir uma prova que demonstre a eficácia da homeopatia e explique o seu modo de acção. Em ciência, tudo pode ser posto em causa, face a novas experiências. Mas nem tudo está em pé de igualdade. Ninguém espera que se demonstre que a Terra seja plana. Com a homeopatia, passa-se o mesmo. Devemos ter o cérebro aberto a todas as ideias, mas não tão aberto que os miolos nos caiam da cabeça.

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