Por Jarrett Walker [a]

O colunista do «Los Angeles Times» David Lazarus tentou usar o transporte colectivo, recentemente [2], e que o deixou louco não foi a espera, a multidão e os atrasos. O que o deixava louco foram as tarifas:

Por exemplo, o transbordo. Mudar dum operador de transporte colectivo para outro é, muitas vezes, uma necessidade, numa área tão vasta como esta. Alguns, como o Big Blue Bus de Santa Mónica, tornam essa necessidade relativamente fácil de realizar. Outros não.

A L. A. County Metropolitan Transportation Authority, o principal operador de autocarros e comboios no Sul da Califórnia, cobra $1,25 por viagem (até $1,50, em Julho). E pode-se pagar mais 30 centavos, para fazer transbordo para outro operador.

Mas não se pode fazer transbordo duma linha da rede Metro para outra, ou dum autocarro para o metro. Mudar duma linha da rede Metro rápida para uma linha local, por exemplo, vai exigir o pagamento da tarifa completa duas vezes.

Também se pode comprar um passe Metro diário, por $5, ou um semanal, por $17, mas estes passes não permitem mudar de operador. Nem permitem utilizar os autocarros expresso, que são muitas vezes a maneira mais rápida de atravessar a cidade durante a hora de ponta.

Eu sempre fui inflexível, no que diz respeito ao papel fundamental do transbordo [3] em qualquer sistema de transporte com múltiplos destinos. Tradicionalmente, o transbordo fazia-se usando bilhetes especiais, emitidos por um motorista e aceites pelo seguinte. Infelizmente, muitas cidades descobriram que esses bilhetes eram ferramentas fáceis para viajar sem pagar. As pessoas que não precisavam deles vendiam-nos a outros passageiros; e os motoristas cansaram-se de terem de guardar os seus blocos de bilhetes de transbordo, como se fossem dinheiro.

Assim, há um par de décadas, começou a espalhar-se no sector norte-americano do transporte colectivo a ideia de que devemos livrar-nos dos transbordos e, em vez disso, vender um passe barato, para um dia, cerca de duas vezes mais caro do que a tarifa de base. A ideia era que as pessoas que fizessem transbordo, ou uma viagem de ida e volta, sairiam a ganhar com o passe dum dia. Os passageiros que viajavam apenas num sentido, ou que, de forma espontânea, tentava deslocar-se pela cidade, tinham azar. Esta ideia pareceu espalhar-se pelo Sudoeste, chegando a São José, mas não São Francisco. Felizmente, nunca se tornou o padrão do sector. Alguns operadores cobram uma taxa nominal pelo transbordo, para tentar limitar o abuso. Eu lembro-me duma decisão alucinada do Conselho de Supervisores de São Francisco, que aboliu os transbordos no início da década de 1990. «Fiasco» é uma palavra muito leve; e os transbordos estavam de volta logo após um par de semanas.

Assim que os cartões inteligentes [4] se tornarem o padrão, a última justificação para a cobrança de transbordos terá desaparecido. um cartão inteligente é capaz de identificar, quando o passageiro o valida, que acabou de sair dum outro veículos, dentro dum intervalo especificado, de modo que os transbordos gratuitos serão fáceis de identificar e de fornecer. O produto do transporte colectivo são viagens completas, não passeios em linhas individuais. Pode fazer sentido cobrar mais por viagens mais longas ou por períodos de tempo mais longos. Mas a necessidade de sair dum veículo e entrar noutro não é uma característica de luxo, por que o passageiro deva pagar mais; é um inconveniente imposto pela concepção do sistema. Cobrar pelo transbordo nunca fez sentido.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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