Por Gustavo Martins-Coelho

Depois de ter contado com a ajuda da Rita Queirós para falar um pouco do Dia Mundial da Saúde Oral, na semana passada [1], retomo hoje a evolução das espécies [2], para apresentar os três mecanismos que, para além da selecção natural [3], permitem que a evolução aconteça, ou seja, que a frequência dum dado alelo aumente ou diminua na população, geração após geração. São eles a deriva genética, a boleia genética e a mutação.

Então, em relação à deriva genética, a mesma consiste na alteração da frequência dos alelos na população, fruto do acaso. Na biologia — e na ciência, em geral [4] —, não há verdades absolutas. Ainda mais especificamente: não há verdades individuais. Por exemplo, nós sabemos que fumar faz pessimamente à saúde [5, 6, 7, 8]. Mas todos conhecemos exemplos de fumadores que viveram até aos cem anos e nunca tiveram doenças relacionadas com o tabaco. Quer isto dizer que tudo o que ouvimos sobre os malefícios do tabaco está errado? Não: quer, simplesmente, dizer que nós sabemos que os fumadores, em geral, têm tendência a morrer mais cedo e a ter mais doenças e doenças mais graves, enquanto estão vivos, mas nada podemos prever sobre o que vai acontecer, no futuro, a cada fumador com que nos deparamos, individualmente. O mesmo raciocínio se aplica à selecção natural: nós sabemos que, em geral, um gene que torna o indivíduo menos adaptado ao seu ambiente tem tendência a ser eliminado, porque os indivíduos portadores desse gene, ao terem mais dificuldade em sobreviver, deixam menos descendência, mas nada podemos dizer sobre quantos filhos vai ter cada pessoa portadora desse gene, individualmente. Em populações grandes, isto não faz grande diferença: mesmo que um punhado de indivíduos tenha muita sorte ou muito azar e acabe por ter um sucesso reprodutivo muito diferente do que seria esperado, dado o seu genótipo, globalmente, isso não afecta muito a média e a acção da selecção natural. Mas, em populações mais pequenas, não é assim. Se só há um número reduzido de indivíduos, então, efeitos aleatórios podem resultar na transmissão à descendência de genes que não seriam seleccionados naturalmente. Isto é a deriva genética.

A boleia genética é, na minha opinião, um conceito engraçado. Para o explicar, relembro que os nossos genes estão fisicamente localizados em cromossomas [9, 10] , os quais são baralhados de várias formas, no momento da reprodução [11]. Nesse processo, é fácil de entender que os genes que estão fisicamente localizados mais perto uns dos outros tenham tendência a permanecer juntos, na transmissão aos filhos, enquanto genes localizados em partes mais distantes do mesmo cromossoma, ou em cromossomas diferentes, mais facilmente passem para os filhos em combinações diferentes. Isto chama-se desequilíbrio de ligação — os genes «ligados» (ou seja, os que estão mais próximos) tendem a passar juntos de pais para filhos. Ora, se um desses genes tiver um alelo particularmente favorável, que seja seleccionado positivamente pelos mecanismos da selecção natural, o outro gene, que a ele está «ligado», também vai ser seleccionado, apesar de não ter uma razão particular para isso. Diz-se, então, que vai à boleia do alelo seleccionado. É ou não é engraçado?

Finalmente, a mutação. Além de contribuir para a variação genética que permite que a evolução se dê [11], através da selecção natural, a mutação pode também ser uma força promotora de alterações na frequência dos alelos na população e, portanto, da evolução. Como? Simples: as mutações ocorrem a nível molecular, trocando uns nucleótidos por outros. Nucleótidos são moléculas que constituem a base do ADN; é na sua sequência que está contida a informação genética. Portanto, trocando um nucleótido, numa dada posição, por outro, está-se a alterar a informação genética aí contida. Ora, o que nós sabemos é que nem todas as reacções químicas ocorrem da mesma forma, de modo que é possível que determinadas mutações ocorram com mais frequência do que outras, meramente por acção das leis físico-químicas subjacentes à existência do ADN e ao seu funcionamento. Nesse caso, uma mutação frequente tenderá, na ausência duma força oposta, tal como a selecção natural, a produzir a evolução no sentido dessa mutação.

Advertisements