Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Gabriel García de Oro, publicado no jornal «El País» [1].

Se não fosse a fada madrinha, depois de esfregar, limpar, passar a ferro, arrumar e cozinhar, a Cinderela teria ficado em casa, cansada e pensando com ansiedade em tudo o que ainda lhe faltava fazer. Nós não somos muito diferentes da Cinderela: antes de podermos ir ao baile — fazer o que nos motiva, nos dá prazer e poderá até mudar as nossas vidas —, vemo-nos imersos num sem-fim de tarefas: a casa arrumada, a roupa estendida, o miúdo inscrito em quatro actividades extracurriculares; temos de ser tremendamente produtivos no trabalho, excelentes amantes, com uma vida social rica e o Facebook actualizado. De permeio, comer cinco peças de fruta por dia e correr dez quilómetros. Fazer, fazer, fazer — e o baile, no palácio, fica para amanhã.

As nossas madrastas somos nós mesmos. Na sociedade do rendimento e do multitasking, o indivíduo explora-se a si mesmo, com a desculpa da obrigação. O único pecado é a inactividade, mesmo nos momentos de ócio, que se converteram num frenesim de actividades, que nos deixam mais cansados, do que quando começámos. Estamos rodeados pelo afã da produtividade: aplicações que nos lembram do que temos por fazer; os cadernos, onde anotamos as listas de tarefas por cumprir; os livros que explicam como fazer tudo e chegar a todo o lado e a fazer render o tempo.

Está na hora de abandonar essa loucura, porque nada há de menos produtivo, do que o afã da produtividade. Para sermos realmente produtivos, temos de saber reservar a nossa atenção para as coisas importantes; colocar o baile em primeiro lugar, não para «depois de acabar o resto». O que fazer a esse «resto»? Dividimo-lo em três grupos:

  • Coisas para fazer: depois de irmos ao baile, façamos o que temos de fazer; aquilo que, se não fizermos, voltará para nos pressionar.
  • Coisas para organizar: podemos delegar, pedir ajuda, repartir tarefas e garantir que certas coisas se realizem sem recaírem sobre os nossos ombros.
  • Coisas para não fazer: renunciar a tudo o que não é estritamente necessário será a grande vitória contra a voragem da hiperactividade sem sentido.

Assim que tenhamos conseguido deixar de correr na espiral do dia-a-dia em modo multitasking, é o momento de começar a bailar. O mais importante é ouvir a música — descobrir o que nos faz felizes. Como? Respondendo à três perguntas seguintes:

  • Temos vontade de bailar? Se praticamos a actividade com vontade e dedicação e sentimos um formigueiro, quando pensamos nela, então esse pode ser o nosso elemento.
  • O tempo pára? Se deixamos que a meia-noite chegue, sem darmos pela passagem do tempo, tal como a Cinderela, então estamos no baile certo.
  • Há magia? A magia é outro nome para a paixão e esta é o motor da grandeza, da realização pessoal e da mestria. Se descobrimos aquilo que nos apaixona, seremos capazes de focar a nossa energia nisso e produzir mais e melhor.
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