Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Pedro Afonso, publicado no jornal «Público» [1].

O Governo anterior aumentou o horário de trabalho na função pública para as 40 horas semanais (alegando que este alargamento aumenta a produtividade, reduz custos [no pagamento de horas extraordinárias] e equipara o horário de trabalho do sector público ao do sector privado), no que constituiu um erro político, felizmente em vias de ser corrigido pelo actual Governo.

A presença prolongada no local de trabalho não é sinónimo de maior produtividade e compromisso laboral, pois a produtividade cai com o cansaço, visto que a capacidade de concentração é limitada e o nosso organismo não é uma máquina, programável de acordo com as conveniências. Os erros aumentam e o impacto na saúde é elevado.

Vivemos um curioso paradoxo: apesar de dispormos de meios tecnológicos que nos facilitam a vida, o ritmo do dia-a-dia não pára de aumentar. No sector privado, fica mal sair do trabalho a horas, de modo que se tem vindo a criar um clima de pressão insustentável, para que se considere normal cumprir uma jornada de trabalho não remunerada além das cinquenta horas semanais.

Um horário excessivo aumenta o risco de burnout, uma reacção emocional crónica, caracterizada por: desmotivação, desinteresse e mal-estar geral na relação com o trabalho. Deseja-se abandonar o emprego, a produtividade diminui e o absentismo aumenta, podendo surgir perturbações depressivas e de ansiedade, abuso de álcool, etc.

O aumento da natalidade não se promove apenas com benefícios fiscais, subsídios ou abonos de família. A qualidade de vida, a produtividade e o desejo de ter filhos estão associados à capacidade de conciliar o trabalho e a família. Manter o horário de trabalho nas quarenta horas semanais e impedir flexibilidade da jornada laboral é uma medida anti-natalidade. Sair mais cedo uma hora do trabalho faz muita diferença para pais e mães. As deslocações entre o trabalho, casa, a escola e as actividades extracurriculares dos filhos não aparecem nas folhas de cálculo, mas estão presentes na vida do cidadão comum.

O trabalho excessivo rouba-nos o tempo, a energia, a saúde, os amigos e a família, deixando-nos isolados e infelizes. Há que pôr fim à idolatria das quarenta horas semanais. Um país desenvolvido tem de pensar nas pessoas, oferecendo-lhes tempo para viver, para fazer aquilo que para nós é importante, ter mais liberdade, ganhar qualidade de vida e ter mais saúde. Talvez assim fôssemos um povo menos envelhecido, mais feliz, e até saíssemos do topo da lista dos países da Europa onde se consome mais antidepressivos.

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