Por Gustavo Martins-Coelho

Quarta-feira, 10 de Agosto de 2005, já em Tolosa. A primeira paragem do dia foi a Basílica de São Saturnino de Tolosa, uma pérola do românico do Sul de França e símbolo da cidade. É de notar uma certa influência mourisca, tanto no interior como no exterior, traduzida em decorações fitomórficas e geométricas, nas paredes e nos pilares.

O Capitólio é o centro administrativo da cidade. O exterior, apesar de bonito, não deixa adivinhar o espectáculo que se vê no interior (com os sacos às costas e devidamente bisbilhotados pelo porteiro, não fôssemos querer mandar pelos ares as fantásticas pinturas murais que recobrem as paredes e tecto da escadaria e, pelo menos, das três salas abertas ao público).

Atravessámos a Praça do Capitólio, atolada de toldos, debaixo dos quais tudo se vendia e tudo se comprava, e percorremos as pitorescas ruas da cidade, até ao Convento dos Jacobinos, do qual visitámos a Igreja e o Claustro, mais uma vez com as mochilas às costas, porque a senhora deprimida, que vendia os bilhetes dentro da sua jaula, não no-las deixou guardar à entrada da igreja. Aliás, para garantir que compreendíamos a mensagem, repetiu no final de cada frase que nos disse que tínhamos de levar as mochilas connosco. Enfim, os Franceses e o seu plano «vigia-o-pirata» [1]!!! Mas lá conseguimos ver a palmeira, isto é, o pilar de sustentação da cúpula sobre o altar, que suporta os vinte e dois arranques dos arcos de sustentação. O Claustro, um local de retiro espiritual dos Jacobinos, apresenta em todo o seu perímetro um conjunto de colunas dispostas aos pares, excepto um grupo que tinha quatro, com capitéis diferenciados.

Depois de visitarmos o Convento dos Jacobinos, continuámos o nosso périplo pela Cidade Velha de Tolosa e estacionámos em plena Praça Puits-Clos, em frente à fonte esquecida, onde almoçámos.

A tarde foi passada entre a Mansão Assézat e a Catedral de Santo Estêvão. A primeira é o casarão dum ricaço do século XVI, sendo justamente considerada o edifício privado mais bonito de Tolosa. A segunda é uma salgalhada de estilos arquitectónicos, tendo demorado cinco séculos a ser construída. Como se não bastasse a confusão de pedra, tijolo e cimento, arcos em ogiva e de volta perfeita, para ser diferente de tudo alguma vez visto, a igreja resolveu ter a nave central e o coro desalinhados. A procissão do Ofertório tem, deste modo, de fazer um trajecto em esse. Quem disse que o caminho da virtude é recto? Ou fácil?

A tarde chegou ainda para ver os murais pintados a graffiti (arte e não vandalismo), mas que nos não encheram as medidas.

Seguiram-se duas horas de espera na estação, temperadas com dois dedos de conversa com uma senhora simpática que dá nota negativa ao serviço prestado pela SNCF [2] (vê-se logo que nunca andou num comboio da CP [3]).

Embarcámos no comboio que nos levou — sem percalços nem história — até Irun (também, se houvesse história, a verdade é que estávamos demasiado cansados para a anotar). Em Irun, jantámos «bocadilhos» de tortilha, muito bons, e aguardámos calmamente a partida do Expresso do Sul [4].

Quinta-feira, 11 de Agosto de 2005. Repetiram-se as acrobacias da primeira viagem, descobriram-se novas posições para tentar dormir e até teríamos chegado a horas a Coimbra, não fosse alguém ter puxado indevidamente o travão de emergência. Felizmente, a CP pensa em tudo — e fez o alfa pendular com destino ao Porto passar também ele atrasado, só para que nós conseguíssemos ainda apanhá-lo. A viagem foi curta e agradável; e em três tempos estávamos em casa, celebrando o regresso com a família, que nos foi esperar à estação.

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