Por Gustavo Martins-Coelho

Uma vez explicados os conceitos básicos subjacentes à evolução [1, 2] e os mecanismos por que esta se dá [3, 4], está na hora de analisar as consequências da evolução, que são três: adaptação, especiação e extinção.

A adaptação é o processo pelo qual uma espécie adquire os traços que lhe permitem melhor viver no seu habitat. Atenção, que, quando digo «adquire», não quero dizer que a adaptação acrescenta novos traços; pode ser precisamente o oposto. A adaptação tanto pode fazer nascer uma nova característica, que é útil, naquele ambiente, ou fazer perder uma característica que é inútil ou mesmo prejudicial, no habitat daquela espécie. Se a característica for inútil, perde-se, tanto por representar uma poupança em termos do «esforço» que o organismo tem de fazer para a manter, tanto por, simplesmente, não haver pressão selectiva para a manter, pelo que os indivíduos que a perdem não são seleccionados negativamente. Se a característica for prejudicial, então é fácil de perceber que a selecção natural vai fazer com que os indivíduos que tenham esse traço se reproduzam menos, pelos mecanismos que já expliquei, há três semanas. A adaptação, muitas vezes, ocorre através da modificação gradual de estruturas existentes. É curioso pensar que as barbatanas das baleias, as asas dos morcegos e as patas dianteiras dum cão têm exactamente os mesmos ossos que o membro superior duma pessoa, só que de tamanhos e formas diferentes, porque se adaptaram a ambientes diferentes… Nós, seres humanos, também temos estruturas, chamadas vestigiais, que representam órgãos que desempenhavam funções noutras espécies, que nos deram origem, mas que, a nós, pouco jeito fazem, estando por isso em vias de desaparecer. São exemplos de estruturas vestigiais os dentes do siso, o cóccix, o apêndice e o músculo erector do pêlo, que nos faz ficar com pele de galinha.

A especiação é o processo pelo qual uma espécie diverge em duas ou mais espécies descendentes. Por princípio, considera-se que existem duas espécies distintas, quando as suas populações não são capazes de acasalar entre si. É um pouco mais complicado do que isto, mas fiquemo-nos por aqui, pois, caso contrário, teríamos de explicar por que um cavalo e uma burra, sendo de espécies diferentes, conseguem acasalar e produzir uma mula. Fiquemos então com a ideia simples de que, quando duas populações não conseguem acasalar, se tratam de duas espécies diferentes. Isto pode acontecer à custa de quatro mecanismos: especiação alopátrica, peripátrica, parapátrica e simpátrica. A especiação alopátrica é a mais comum e acontece quando duas populações da mesma espécie ficam isoladas geograficamente e cada uma se adapata ao habitat que vem a ocupar, até atingirem o ponto em que se tornam tão diferentes que não conseguem mais acasalar, se algum dia vierem a ser reunidas. A especiação peripátrica é semelhante à primeira, só que uma das populações é tão pequena, que a deriva genética [4] provoca uma evolução muito rápida. A especiação parapátrica é semelhante à peripátrica, envolvendo também um pequeno grupo duma população que penetra um novo habitat, mas sem que aconteça uma separação geográfica, como no caso da especiação alopátrica e da peripátrica. Finalmente, a especiação simpátrica acontece, quando duas espécies divergem, a partir dum ancestral comum, sem que, no entanto, surja qualquer tipo de isolamento geográfico entre si. Como é fácil de compreender, é muito rara, pois, quando indivíduos da mesma espécie partilham o mesmo habitat, raramente o acasalamento entre esses indivíduos se dá de forma tão determinada, que permita a instalação de diferenças genéticas capazes de impedir a viabilidade do acasalamento entre indivíduos das novas espécies em formação.

Finalmente, a extinção é o desaparecimento, por completo, duma espécie. Não é um evento raro, bem pelo contrário: aliás, diria que a extinção é, provavelmente, o destino de todas as espécies, mais cedo ou mais tarde, incluindo a espécia humana. Embora a extinção de espécies esteja permanente a acontecer, há períodos mais profícuos em fazer extinguir espécies. Um deles foi o período Cretácico, o mais conhecido de todos, por nele terem desaparecido os dinossauros, mas o mais trágico para a vida terá sido o do Triássico, em que 96 % de todas as espécies marinhas se extinguiu. Actualmente, vivemos outro período de extinções em massa, fruto da expansão e da acção humana por todo o planeta. Pensa-se que, até meados do século, 30 % das espécies actualmente existentes poderão estar extintas.

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