Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Daniel Adrião, publicado na revista «Sábado» [1].

— Não se trata […] de meter o socialismo na gaveta, mas de salvar a democracia — disse Mário Soares em 1978, pretendendo assinalar a grande diferença entre o socialismo democrático, representado pelo PS (para quem a democracia era mais importante do que o socialismo), do socialismo real, representado pelo PCP e pelas forças de extrema-esquerda. Com base neste princípio — de que o socialismo era uma opção ideológica que devia ser sacrificada, sempre que estivesse em causa um bem maior —, Mário Soares aliou-se às forças democráticas de direita, para salvar o novo regime da ameaça totalitária comunista.

A necessidade de estabilidade política impôs, portanto, ao PS alianças com o centro-direita. A crise económica impôs a intervenção do FMI, em 1977 e 1983, e os respectivos programas de austeridade. A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia justificou os sacrifícios pedidos aos Portugueses. Apesar dos três objectivos (estabilidade política, saneamento das finanças públicas e adesão europeia) terem sido alcançados, abrindo ao país um longo ciclo de desenvolvimento e de prosperidade, a estratégia de «meter o socialismo na gaveta» custou ao PS o seu pior resultado de sempre, nas eleições de Outubro de 1985 e conduziu à primeira de três vitórias consecutivas do PSD, duas das quais por maioria absoluta — e a uma década de cavaquismo.

O socialismo europeu seguiu o mesmo caminho, com o seu reposicionamento ideológico no centro político, através de profundas actualizações doutrinárias e programáticas (vejam-se os casos de Tony Blair e o New Labour, de Gerhard Schröder e o Novo Centro, ou de António Guterres e os Estados Gerais), que geraram um enviesamento para a direita do sistema político-partidário. Os partidos socialistas e social-democratas europeus foram renunciando ao sonho de lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, rendendo-se ao modelo económico capitalista, tornado inevitável pelo processo de globalização económica, aceitando com resignação os seus efeitos de crescente desigualdade na distribuição da riqueza e conformando-se com a ideia dum Estado mínimo, reduzido à gestão das infraestruturas colectivas e das funções assistencialistas. Assistimos à tentativa de imposição dum pensamento único — o neoliberalismo —, plasmado nos consensos de Bruxelas, com o beneplácito do que resta da esquerda, a quem cabe somente demonstrar que é mais eficaz do que a direita na gestão, mas competindo no terreno desta.

Porém, a descaracterização dos partidos socialistas europeus não tem evitado sucessivas derrotas eleitorais. Primeiro, no Parlamento Europeu, onde os partidos socialistas sofreram uma derrota histórica; depois, na Grécia, onde o Pasok viu a esmagadora maioria dos seus eleitores fugir para o Syriza; a seguir, nas eleições municipais francesas, onde a austeridade de Hollande sujeitou o PS a uma pesada derrota e trouxe Sarkozy de volta; e por último, no Reino Unido, onde o Partido Trabalhista deu a David Cameron uma maioria absoluta. A conclusão a retirar é que a transformação dos partidos socialistas em sucedâneos da direita é claramente rejeitada pelo eleitorado, que premeia os partidos que se mantêm fiéis aos seus princípios.

Os actuais líderes dos partidos socialistas europeus parecem dizer aos seus eleitorados:

— Não se trata de meter o socialismo na gaveta, mas de salvar a economia — ou, como disse Bill Clinton: — é a economia, estúpido!

Aparentemente, o único problema desta teoria é que os eleitores socialistas começam a dar sinais cada vez mais evidentes de que estão a ficar cansados de serem tomados por estúpidos.

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