Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do José Pacheco Pereira, publicado no jornal «Público» [1].

A língua portuguesa, apesar de atacada por todos os lados — na sua ortografia, na sua complexidade vocabular, na sua riqueza expressiva —, está cheia de palavras certíssimas, para designar quase todas as cambiantes do comportamento humano. Essas palavras estão a perder-se, como se se estivesse a realizar uma das funções essenciais que Orwell atribuía ao Big Brother: tirar todos os anos algumas palavras de circulação, porque é mais fácil controlar pessoas cujo vocabulário é restrito e que, por isso, têm dificuldade em expressar-se com clareza e riqueza e, por consequência, dominam menos o mundo em que vivem. O incremento de formas de expressão quase guturais, como os SMS e o Twitter, apenas dá expressão a um problema mais de fundo, que é desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura e de um universo mediático muito pobre e estereotipado.

Tudo isto vem a propósito da palavra «lampeiro». «Lampeiro» é a palavra do dia.

Lampeiros com a verdade há muitos. Sócrates é sempre o primeiro exemplo, mas Maria Luís Albuquerque partilha com ele a mesma desenvoltura na inverdade, como se diz na Terra dos Eufemismos. E Pedro Passos Coelho dá cursos completos, dentro da tese de que tudo que se diz que ele disse é um mito urbano. Não existiu. Se o outro tinha a «narrativa», este tem o «mito urbano». Lampeiro.

Aconselhar os portugueses a emigrar? Só os professores, mas estes não são portugueses inteiros. Lampeiro.

A crise não atingiu os mais pobres, porque «os portugueses com rendimentos mais baixos não foram objecto de cortes». Os cortes no rendimento social de inserção foram apenas cortes no acesso e combate à fraude. Os cortes nos subsídios de desemprego e no complemento solidário de idosos foram justas medidas para levarem os desempregados e os velhos a saírem da sua «zona de conforto». Lampeiro.

O IVA não foi aumentado em Portugal. Só houve alterações no cabaz de produtos e serviços. A restauração anda toda ao engano. Na luz, foi um erro da EDP e dos chineses. Lampeiro.

«Não queremos a Grécia fora do euro», mas queremos derrubar o governo do Syriza; queremos o Syriza humilhado, a morder o pó das suas promessas eleitorais; queremos os Gregos a sofrerem mais, porque votaram errado. Na Europa, não há excepções. Só a França, que violou o Pacto de Estabilidade; e a Alemanha que fez o mesmo; e os outros 21 países, que violaram as regras. Consequências? Foi-lhes dado mais tempo, para controlar as suas finanças públicas. Mas ninguém tenha dúvidas: a Grécia não pode ser a excepção, porque, na Europa, não há excepções. Lampeiro.

Este tipo de campanha é insuportável, mas suspeito que vamos continuar a ver a direita a «bombar» este tipo de invenções sem descanso. O PS ainda não percebeu em que filme é que está metido. Continuem com falinhas mansas, a fazer vénias para a Europa ver, a pedir quase por favor um atestado de respeitabilidade aos amigos do governo, a andar a ver fábricas «inovadoras», feiras de ovelhas e de fumeiro, a pedir certificados de bom comportamento a Marcelo e Marques Mendes, a fazer cartazes sem conteúdo e vão longe.

Será que não percebem o que se está a passar? Enquanto ninguém disser na cara do senhor Passos Coelho esta tão simples coisa: «o senhor está a mentir» e se aguentar à bronca, a oposição vai continuar a achar que é governo. Por uma razão muito simples, é que ele está mesmo a mentir e quem não se sente não é filho de boa gente. Mas para isso é preciso mandar borda fora os consultores de imagem, os assessores, os conselheiros, a corte pomposa dos fiéis e deixar entrar uma lufada de ar fresco de indignação.

Então como é? O país está mal ou não está? Então, deixem-se os rituais da política de salão e as conferências de imprensa de parte, deixem-se de salamaleques politicamente correctos, mostrem que não querem pactuar com o mal e experimentem esse franc parler que tanta falta faz à política portuguesa.

Para isso, é preciso uma genuína indignação com o que se está a passar, a zanga, a fúria que não é de circunstância, mas que vem do fundo e que arrasta multidões e dá representação aos milhões de portugueses que não se sentem representados no sistema político. Eles não são apáticos; só que olham para os salões onde se move a política e vêm gente acomodada, com medo de parecer «radical», a debitar frases de circunstância e que não aprenderam nada e não mudaram nada, nem estão incomodados por dentro. Como esperar que alguém se mobilize com as sombras das sombras das sombras?

Enquanto isto não for varrido pelo bom vento fresco do mar alto, os lampeiros vão sempre ganhar. A dureza e o mal são sempre mais eficazes do que o bem e muito mais eficazes do que os moles e os bonzinhos.

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