Por Satoshi Kanazawa [a]

Pergunte a um grupo de amigos quais são os seus passatempos. Se tiver muitos amigos jovens, solteiros, de ambos os sexos, o mais provável é que muitos dos seus amigos do sexo feminino mencionem viajar como um dos seus passatempos, enquanto muito poucos dos amigos solteiros do sexo masculino o façam. Ou, o leitor poderá descobrir que muitos dos seus amigos jovens do sexo feminino estiveram recentemente de férias num país estrangeiro, mas poucos entre os seus amigos jovens do sexo masculino o fizeram. Porquê?

Experimente uma observação completamente diferente. Siga atentamente a cobertura noticiosa da mais recente reunião do Ku Klux Klan nos Estados Unidos, ou a convenção do Partido Nacional Britânico, ou qualquer outro encontro duma organização expressamente xenófoba e vai notar que a maioria dos participantes de tais organizações xenófobas são homens jovens, solteiros; há relativamente poucas mulheres ou homens mais velhos como membros de tais organizações. Porquê? Parece que a razão pela qual mais mulheres jovens solteiras passam férias no estrangeiro pode ser a mesma pela qual a maioria dos neonazis são homens jovens e solteiros. Pode ter que ver com um fenómeno animal, chamado lekking.

Lek é uma palavra sueca que significa «brincar» e refere-se, em Zoologia, a um padrão de comportamento, pelo qual os membros dum sexo, quase sempre masculino, apresentam e exibem a sua qualidade genética num concurso, em frente a uma plateia composta por membros do sexo oposto, quase sempre do sexo feminino. No final do lek, as fêmeas escolhem o vencedor e acasalam exclusivamente com ele. O vencedor do lekking monopoliza todas as oportunidades de acasalamento e nenhum dos outros machos obtém qualquer oportunidade.

À primeira vista, os seres humanos parecem ser uma excepção na natureza. Entre a maioria das espécies, os machos são vistosos, coloridos, enfeitados e ornamentados, enquanto as fêmeas são monótonas na aparência (compare pavões com pavoas). Os machos das espécies que fazem lekking exibem as suas características físicas, a fim de atrair parceiras, e as fêmeas escolhem os seus parceiros com base na aparência física dos machos; quanto mais vistoso e mais colorido, melhor. Por seu turno, entre os seres humanos, são as mulheres para quem a aparência física é mais importante para o seu valor sexual e são os homens que escolhem as suas parceiras, sobretudo, pela sua aparência física. E, pelo menos nas sociedades industrializadas, as mulheres tendem usar mais enfeites e ornamentos do que os homens, embora os homens, em muitas sociedades pré-industriais, muitas vezes usem ornamentação mais elaborada do que as mulheres.

As fêmeas da maioria das espécies na natureza não recebem qualquer benefício material dos seus parceiros; o macho não faz qualquer investimento na prole, além do esperma depositado no interior do corpo feminino, durante a cópula. É por isso que a qualidade genética do macho é especialmente importante para a fêmea; na verdade, nada mais importa. Assim, entre estas espécies, os machos exibem a sua qualidade genética através do lekking e as fêmeas escolhem os seus parceiros unicamente em função da sua qualidade genética.

Os machos humanos são uma excepção na natureza, a este respeito; eles fazem uma grande quantidade de investimento relevante na sua prole, ainda que não seja um investimento tão grande como o das mulheres, como eu expliquei em artigos passados [2, 3, 4]. Isso não significa, contudo, que a sua qualidade genética não seja importante para as mulheres; a qualidade genética dos homens pode prever a sua futura capacidade de adquirir recursos e alcançar estatuto; e, por esse meio, a sua capacidade de investir nos filhos. Para os seres humanos, por causa do elevado investimento masculino na descendência, o que é importante não é a qualidade genética do macho em si, mas o seu potencial de ganhos. A sua qualidade genética é importante, apenas na medida em que permite prever ou se correlaciona com o seu potencial para ganhar e acumular recursos materiais.

É por isso que quando os homens também fazem lekking: eles exibem a sua riqueza potencial e acumulada, para além da sua qualidade genética. E, ao contrário doutras espécies, tais como os tetrazes ou o antílope, os homens fazem lekking principalmente por meio não físicos. Eles conduzem carros de luxo, usam relógios caros e fatos de marca, fazem-se acompanhar da última tecnologia electrónica, como os mais recentes telemóveis e tabletes, e gabam-se das suas realizações, em conversas casuais. Os homens jovens também propagandeiam a sua qualidade genética e o potencial de ganho através de «manifestações culturais» — sendo brilhantes em actividades «quantificáveis, públicas e caras», tais como música, arte, literatura e ciência.

Num estudo, por exemplo, os investigadores observaram secretamente os clientes dum bar no centro de Liverpool no final da década de 1990, quando os telemóveis ainda eram relativamente raros e caros. Os investigadores descobriram que a tendência dos homens para colocar os seus telemóveis em cima da mesa, à vista dos outros, ao contrário da tendência das mulheres para fazerem o mesmo, aumentava com o número de homens no grupo e a sua proporção de homens para mulheres. A interpretação dos investigadores é que os homens fazem isso, conscientemente ou (mais provavelmente), de forma inconsciente, a fim de competir com outros homens no seu grupo pela atenção das mulheres e para exibir a sua riqueza e o seu estatuto e, portanto, a sua qualidade genética e o potencial de ganhos. Portanto, os homens fazem lekking por via da ornamentação social e cultural, em vez da física.

O que é que disto tem que ver com a xenofobia e as viagens ao estrangeiro? Vou explicar no meu próximo artigo.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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