Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Aditya Chakrabortty, publicado no jornal «The Guardian» [1].

A narrativa corrente, em relação à Grécia, é a de que os turbulentos Gregos não estavam preparados para o euro, se meteram em alhadas e, agora, ou aceitam a solução que a nobre Europa lhes propõe, ou saem da moeda única, porque a zona euro não é uma agência de caridade. Qualquer que seja a variante, o tom dominante elogia Bruxelas e culpa Atenas.

O problema desta narrativa é que choca com a realidade. Atenas é somente o pior surto duma doença que afecta todo o euro. O euro não funciona para nenhum europeu.

Dito isto, não podemos fechar os olhos à corrupção endémica da Grécia, nem achar que Br-ou-qualquer-outro-prefixo-exit é a solução. Mas temos de admitir que o euro não só não cumpriu as promessas dos seus criadores, como está a fazer o contrário, erodindo o nível de vida dos europeus, mesmo para aqueles que vivem na maior economia — a Alemanha.

Comecemos por relembrar quais foram essas promessas, feitas pelos fundadores do euro: o grande unificador da Europa, capaz de fazer convergir os níveis de vida, aprofundar a democracia e dar lugar a uma verdadeira cultura europeia.

Mas, em vez de melhorar o nível de vida dos Europeus, a união monetária está a fazê-lo decair. Em vez de aprofundar a democracia, está a aprofundar o mercado, à custa daquela. E, em vez de criar uma cultura europeia, está a pôr o Norte contra o Sul.

Destas três falhas, a primeira é a mais importante, porque explica por que toda a união está a ser minada. O custo unitário do trabalho, entre 1999 e 2013, praticamente não aumentou na Alemanha. No país mais poderoso do continente, as pessoas que lá vivem e trabalham, para o tornar mais próspero, não viram qualquer recompensa pelo seu esforço. E este é o modelo que querem exportar para o resto do continente.

A Alemanha costumava ser uma nação de trabalhadores altamente qualificados e muito bem pagos, em fábricas brilhantes. No entanto, essa mão-de-obra e os correspondentes sindicatos estão paulatinamente a ser substituídos por empregos de baixos salários.

Não é culpa do euro, mas do declínio dos sindicatos e da deslocalização para a Europa de Leste. A culpa do euro é tornar este um problema europeu. Os trabalhadores dos restantes países vêem os seus salários cortados, por força do corte salarial alemão. Enquanto, no último século, os outros países da zona euro podiam tornar-se mais competitivos por via da desvalorização cambial, a moeda única retirou-lhes essa ferramenta, deixando, como única solução, a redução salarial. É exactamente isto que a troika disse à Grécia: tornem os trabalhadores redundantes, paguem aos que têm emprego muito menos e cortem nas pensões dos velhos. A troika disse à Grécia e os sábios de Bruxelas e Estrasburgo repetem a todo o continente, de cada vez que falam de reforma do mercado de trabalho e da segurança social. O nobre projecto europeu tornou-se numa marcha para o fundo do poço.

Este aprofundamento do mercado é incompatível com a democracia. A democracia europeia passou a ser: «votam os eleitores e, no final, governa a Alemanha». Foi isso que aconteceu na Grécia, com o enxovalhamento do Syriza, e será o que acontecerá em qualquer país que queira virar demasiado à esquerda. O thatcherismo atingiu uma escala continental, sempre acompanhado da ideia de que «não há alternativa», e o facto da social-democracia europeia parecer concordar com isso não torna as coisas melhores, mais simpáticas, ou mais verdadeiras. Apenas dá um ar de hipocrisia à coisa.

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