Por Gustavo Martins-Coelho

Portugal é um país de pessoa excepcionais. Cada português acredita que as regras devem existir, mas apenas para serem cumpridas pelos outros, porque ele — o português que acredita que as regras devem existir — foi bafejado pela sorte de ser uma pessoa excepcional; e as pessoas excepcionais são-no, precisamente, por beneficiarem dum regime de excepção, relativamente às regras vigentes.

Certa vez, vi um indivíduo estacionar a sua carrinha totalmente em cima do passeio, na Rua Doutor Magalhães Lemos (presumo que para descarregar umas tralhas para o Rivoli). Um dos muitos transeuntes que, àquela hora, passam por aquela rua indignou-se — com razão — por ser forçado a ir para o meio da rua, para poder continuar o seu caminho, pois que, no passeio, não restava espaço, e fê-lo notar ao condutor da carrinha. A resposta deste:

— Eu estou a trabalhar! — à bruta, e tudo!

Em primeiro lugar, quem lhe disse que o transeunte não estava também a trabalhar? Ou a caminho do trabalho? Ou de regresso do mesmo (pela hora do dia a que esta história sucedeu, o mais provável)? Talvez o indivíduo da carrinha conheça o estado perante o emprego de todos os portugueses e soubesse que aquele transeunte, em particular, estava desempregado, ou reformado (algo que eu, comum mortal — e, portanto, não excepcional, nem merecedor de beneficiar de excepções à regra, ignoro). Mas duvido. Então, em que é que o trabalho do indivíduo da carrinha lhe confere mais direitos, do que o trabalho do transeunte?

Aliás, desde quando trabalhar confere algum regime de excepção, quanto à interdição de estacionamento nos passeios, prevista na alínea f) do artigo 49.º do código da estrada? «Eu estou a trabalhar», logo eu posso estacionar onde me der na real gana!? E se todos usássemos esse argumento?!

Decerto, compreendo a necessidade de parar, ocasionalmente, um veículo em frente ao Rivoli, para cargas e descargas; os cenários, os adereços e os equipamentos de som e de iluminação têm de ser transportados. Mas isso é um problema logístico do Rivoli, que cabe ao Rivoli resolver. Ou arranja um horário especial, para cargas e descargas, a uma hora em que a rua não esteja apinhada de pessoas que regressam do trabalho, ou esperam pelo autocarro, etc., ou arranja um espaço próprio, para cargas e descargas. Basta, por exemplo, pedir à Câmara para retirar uma via de trânsito à Rua Doutor Magalhães Lemos e dedicar uma parte a cargas e descargas e ajardinar o restante,alargar o passeio, ou permitir o estacionamento.

Mas o que me levou a escrever este texto foi mesmo o energúmeno da fotografia. A foto está ligeiramente tremida, porque foi tirada à pressa e não pretende ser uma obra de arte. Mas talvez até nem seja mau, pois, assim,é mais difícil perceber a matrícula, o que me pode poupar chatices. Não que eu pretendesse ocultar a matrícula; poderia, simplesmente, tê-la apagado, mas acho que não vem mal algum ao mundo, se alguém reconhecer a carrinha do energúmeno.

Estava eu na paragem que se vê, à espera do autocarro que haveria de me levar a casa, quando o energúmeno chegou, dentro da sua carrinha, e parou onde o vemos. Há várias razões para ser proibido parar ali. O energúmeno demonstrou ser uma pessoa excepcional, que não tem um pingo de consideração por uma data de gente vulgar — essas, a quem as regras se aplicam.

Para começar, parou em frente a uma paragem de autocarro. Se, antes da chegada do energúmeno, o autocarro já estava impedido de chegar completamente ao passeio, depois daquela paragem, os passageiros passaram a ter de descer do passeio e caminhar pouco mais de três metros, até chegarem ao autocarro. Eu, que tenho boas pernas, não me queixo muito, mas imaginemos uma pessoa com algum tipo de problema de mobilidade (coisa que acontece com cada vez mais frequência, à medida que a idade aumenta). Estas pessoas também usam o autocarro e certamente agradeceriam, se este pudesse parar, mesmo junto ao passeio…

Não satisfeito, mesmo tendo espaço para estacionar junto ao passeio, achou que tal dava muito trabalho e ficou como que em segunda fila. Eram 19h55, a Rua da Constituição (a verdadeira, não o blogue) estava a viver o estertor da sua hora de ponta diária e o trânsito abundava; trânsito que, de repente, se viu obrigado a confluir numa única via de trânsito, porque a segunda se encontrava bloqueada pelo energúmeno, gerando ainda mais congestão.

Como em todos os bolos, a cereja no topo. Imagine-se: o energúmeno parou, pegou no telemóvel, marcou um número e pôs-se à conversa. Sim: tudo isto aconteceu, porque ele se lembrou de que tinha uma chamada — importantíssima e inadiável, certamente — para fazer e, como lhe disseram que é proibido conduzir e falar simultaneamente ao telemóvel, ele achou que, se parasse, em segunda fila, numa paragem de autocarro, já poderia conversar demorada e tranquilamente, com quem lhe apetecesse. Talvez fosse uma chamada de trabalho e, como já aprendemos, trabalhar confere todos os direitos de excepção…

Estes são dois exemplos, entre muitos possíveis, do que eu chamo a excepcionalidade dos Portugueses: essa ideia de que as leis são mais sugestões de conduta, do que regras para cumprir escrupulosamente, a que se junta o tal sentimento de excepcionalidade — «é só por um minuto», «é só desta vez», «é só um bocadinho». Só que, com tantas excepções, deixa de haver regra… 

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