Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Slavoj Žižek, publicado na revista «New Statesman» [1].

Um jovem grego visita o consulado australiano em Atenas e pede um visto, para poder emigrar. O funcionário do consulado pergunta-lhe:

— Por que queres deixar a Grécia?

— Por duas razões — responde o grego. — Primeiro, porque estou preocupado com a perspectiva da Grécia sair da UE, o que levaria a pobreza e caos no país…

— Mas, interrompe o funcionário — isso não faz sentido: a Grécia vai continuar na Europa e submeter-se à disciplina financeira!

— Bem — responde o grego, calmamente — essa é a minha segunda razão.

Sucessivos governos gregos levaram o país à falência. Certo. Mas está na hora de virar a página e de falar do que realmente interessa.

A incapacidade da Europa e da Grécia chegarem a um acordo, que acabou por levar à capitulação do governo do Syriza, após o «não» do referendo, não foi devida a divergências financeiras, que eram mínimas. O real problema era termos, dum lado, o primeiro-minsitro grego e o ministro Yanis Varoufakis com um discurso político aberto, ideológico, baseado em preferências normativas, e, do outro, tecnocratas europeus, para os quais tudo se resume a medidas de regulação detalhadas, isentas de ideologia. Porém, a regulação livre de ideologia é baseada em decisões ideológicas, ainda que mascaradas com a opinião de peritos.

A passagem da política à administração especializada caracteriza o nosso processo democrático actual: as decisões estratégicas resultantes do exercício do poder são cada vez mais vendidas como actos administrativos baseados em conhecimento especializado neutro, negociadas em segredo e aplicadas sem consulta democrática.

A Europa precisa duma heresia, que acabe com o status quo tecnocrata e salve o seu verdadeiro legado: a democracia, a confiança nas pessoas e a solidariedade igualitária. A alternativa é a suspensão da democracia pelo capitalismo.

Anúncios