Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Slavoj Žižek, publicado na revista «New Statesman» [1].

Na Europa Ocidental, gostamos de olhar com carinho para a tragédia da pobre nação grega, mas esquecemos que é o futuro da UE que está em causa.

Os eleitores gregos são o elo mais fraco, pelo que, livrando-nos deles, os peritos ganham o poder de impor as medidas económicas necessárias — e as eleições passam a servir para confirmar o consenso dos peritos.

O problema é que, no caso grego, a política dos peritos é «estender e fingir»: estender o prazo de pagamento da dívida e fingir que a toda a dívida acabará por ser paga. Isto acalma os eleitores alemães, retira veleidades a Portugal, à Irlanda e a Espanha, e coloca a culpa nos devedores; mas transforma a UE num professor que dá exercícios impossíveis aos seus alunos e se ri sadicamente, quando os vê reprovar.

O objectivo de emprestar dinheiro à Grécia não é reembolsar o montante emprestado e obter lucro com os juros. Há três tipos de devedores: os que têm o poder de chantagear os credores (os bancos «too big to fail»); os que podem controlar as condições do pagamento (o governo dos EUA); e os que podem ser humilhados e colocados numa situação de dependência e subordinação (o governo grego).

O que mais perturba as instituições europeias, relativamente ao governo do Syriza, é que este admite a dívida, mas não se sente culpado, relativamente a ela. Pior: o ministro Varoufakis admitiu, nas negociações em Bruxelas, o peso da dívida, mas argumentou, com uma grande dose de racionalidade, que, se a política europeia, obviamente, não tinha resultado até então, dever-se-ia procurar outra opção.

Paradoxalmente, o governo do Syriza é única esperança dos credores reaverem o seu dinheiro. Mais surpreendente é por que continuaram estes a injectar dinheiro num Estado que sabiam ser corrupto. A Grécia nunca teria chegado à situação a que chegou, sem a conivência da Europa, que suportou os mentores da corrupção que criticava, e o objectivo primeiro do governo do Syriza era quebrar este ciclo vicioso. Sobretudo porque a alternativa são os neonazis da Aurora Dourada.

A política financeira proposta pelo Syriza seguia três princípios: défice zero, disciplina apertada e aumento de impostos. Não era muito diferente do que foi feito, por exemplo, em Portugal, por um governo de direita, e ficava muito aquém das linhas programáticas tradicionais da social-democracia europeia dita moderada. É um sinal triste dos nossos tempos, que seja preciso pertencer à esquerda «radical», para advogar as medidas do centro-esquerda.

Syriza não é perigoso pelo seu radicalismo, mas é perigoso a outro nível: o capitalismo global actual não pode dar-se ao luxo de regressar ao velho Estado-providência. Então, se as propostas da esquerda moderada são vistas como radicais, talvez esteja na hora de largar a máscara da modéstia e defender abertamente uma mudança muito mais radical.

 

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