Por Satoshi Kanazawa [a]

Eu expliquei no meu artigo anterior [2] que, ao contrário dos machos doutras espécies que praticam lekking, que mostram a sua qualidade genética pela ornamentação física da sua aparência vistosa e colorida, os homens exibem a sua qualidade genética e o potencial de ganhos pela ornamentação social e cultural. Isso pode explicar simultaneamente por que as mulheres viajam mais para o estrangeiro e por que os homens jovens solteiros são mais xenófobos.

A ornamentação social e cultural coloca aos homens um problema que os machos das outras espécies que praticam lekking através da ornamentação física não enfrentam: não é fácil viajar com ela. A ornamentação social e cultural é, por definição, social e culturalmente específica. Os homens não podem gabar-se dos seus feitos à conversa com as mulheres, a menos que falem a mesma língua. As mulheres ianomami, na floresta amazónica, não seriam capazes de distinguir um BMW dum Hyundai, ou entre um fato Armani e um uniforme do Burger King, nem as suas implicações de estatuto; um Grammy ou um Nobel não as impressionam de todo (algum vencedor do Prémio Nobel tem cicatrizes enormes na cabeça, indicando a sua experiência em lutas?). Por outro lado, as mulheres ocidentais não se impressionam com cicatrizes no corpo e grandes kotekas (um pénis grande, sim; um koteka grande, provavelmente não). Os sinais de estatuto dos homens e do seu valor sexual são específicos de cada sociedade e cultura, perdendo o significado fora delas.

Isso está em claro contraste com a situação da mulher e do seu valor sexual. As normas de juventude e atracção física, os dois determinantes principais do estatuto das mulheres e do seu valor sexual, são culturalmente universais, porque são inatas (como expliquei num artigo pregresso [3]). Os homens de culturas sem escrita ou numeração, sem qualquer conceito de fracções ou da vírgula e das casas decimais, serão capazes de distinguir entre as mulheres com razões cintura-anca de 1,0 e 0,7. Os homens ianomami reconhecem que as modelos de lingerie Victoria’s Secret são extremamente moko dude (uma frase ianomami, que significa «perfeitamente bonita»).

Se o estatuto dos homens e o seu valor sexual são específicos da sua própria sociedade e cultura, então eles devem evitar culturas diferentes, onde um conjunto completamente diferente de regras, que eles ignoram, se aplicam. Por seu turno, as mulheres não devem evitar as culturas estrangeiras na mesma medida que os homens, porque as regras que lhes são aplicáveis são culturalmente universais. Isto é em parte a razão pela qual os homens jovens solteiros não viajam para países estrangeiros, tanto quanto as mulheres jovens solteiras fazem, e por que a maioria dos membros de organizações expressamente xenófobas (como a Ku Klux Klan e o Partido Nacional Britânico) são homens jovens solteiros.

No entanto, essa diferença entre os sexos deve desaparecer assim que os homens casam, por várias razões. Em primeiro lugar, os homens casados que alcançaram algum sucesso reprodutivo devem ter menor necessidade de atrair parceiras através da ornamentação social e cultural do que homens solteiros. Segundo (e mais importante), as parceiras são provavelmente a única ornamentação ou lekking que os homens podem exibir que é culturalmente universal. Há sinais de que as fêmeas de espécies tão variados como o lebiste, o peixe-arroz japonês, o galo-lira, e a codorna japonesa preferem acasalar com machos que acasalaram recentemente. As fêmeas usam a escolha doutras fêmeas como prova da qualidade genética dos homens; ou seja, copiam-se umas às outras. E há alguns dados que apontam no sentido de que as fêmeas humanas façam o mesmo.

A ideia é simples: se uma mulher encontra um homem desconhecido, ela não tem qualquer base para formar uma opinião sobre ele. Ele pode ser um parceiro de alta ou de baixa qualidade e ela não tem como saber (a não ser, claro, que ele conduza um Jaguar ou traga um Rolex, mas só se ela souber o que isso significa). No entanto, se ele tem uma mulher, isso significa que pelo menos uma mulher, que, presumivelmente, inspeccionou de perto a sua qualidade antes de se casar com ele, o achou suficientemente bom para casar. Portanto, ele não pode ser assim tão mau, afinal; pelo menos uma mulher o achou desejável. Assim, ser casado (a presença da mulher) é uma ornamentação ou dispositivo de lekking, culturalmente transponível, que significa o valor superior do homem como parceiro sexual, pelo que os homens casados não devem evitar culturas estrangeiras, tanto quanto os homens solteiros fazem.

A antipatia por culturas estrangeiras pode ser medida pela probabilidade de viajar para países estrangeiros, ou pela expressão de atitudes xenófobas. Um estudo empírico com uma grande amostra europeia mostra que, controlando para a idade, a escolaridade e o rendimento (factores que se espera que afectem a capacidade das pessoas de viajar — e na maioria dos casos o fazem, de facto), as mulheres solteiras são significativamente mais propensas a férias no estrangeiro do que os homens solteiros. O mesmo estudo também demonstra que, controlando para idade e a escolaridade, as mulheres solteiras são significativamente menos propensas a expressar atitudes xenófobas do que os homens solteiros, relativamente a indivíduos doutras nacionalidades, raças ou religiões. O padrão é semelhante entre os norte-americanos, também. Em todos os casos, a diferença entre os sexos desaparece, assim que os entrevistados são casados; as mulheres casadas não são mais propensas a viajar para países estrangeiros (provavelmente porque os casais tendem a fazer férias juntos), nem menos propensas a expressar atitudes xenófobas, do que os homens casados.

Tanto a probabilidade de viajar para o estrangeiro como as manifestações de xenofobia podem reflectir a necessidade dos homens de atrair as mulheres, usando ornamentação cultural social. O estatuto e valor sexual dos homens, ao contrário dos das mulheres, são social e culturalmente específicos, pelo que eles não conseguem atrair com sucesso mulheres fora da sua própria sociedade e cultura. Os homens casados, contudo, podem usar as suas mulheres como ornamentação social culturalmente significativa, para significar o seu valor sexual. Por seu lado, as normas e os critérios pelos quais as mulheres são julgadas pelo seu valor sexual são social e culturalmente universais e, portanto, as mulheres não têm necessidade de temer culturas estrangeiras.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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