Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do José Pacheco Pereira, publicado no jornal «Público» [1].

A direita radical descobriu recentemente o fim da História e o fim da História é a realidade, uma espécie de muro existente na Física das sociedades, contra o qual se vai, quando se abandona o caminho da austeridade e se encontra a TINA — «there is no alternative»; uma lei como a da gravidade.

Tudo é espantoso nesta formulação, a começar pela sua inanidade intelectual, própria de quem julga que encontrou uma filosofia da História, que a TINA é mesmo o fim da História: um estado ideal da sociedade e da política, que não pode ser contestado, porque é o fim, vedado pela realidade, de que não há saída.

O que é a realidade, para a qual não há alternativa?

Em primeiro lugar, é o que existe e a ideia de que o que existe se legitima por existir. Ora, a TINA pretende congelar-nos no actual momento europeu, visto que é uma doutrina europeia. Não é global, nem americana, nem dos BRIC, nem asiática: vem da Europa e existe apenas na Europa dos últimos anos (nem sequer uma década), desde a crise financeira (real) e da crise das dívidas soberanas (politicamente gerada). Manifestou-se na conjugação entre eleições que deram maiorias a governos de direita, deslocaram os partidos para direitas mais radicais (visível na economia, no tratamento da imigração, na deriva securitária, etc.) e permitiram a captura da política pelos mercados. Os mercados não são o que são, são aquilo que o poder político lhes permite ser; ou, pelo menos, assim deveria ser, em democracia.

A União Europeia, cada vez menos democrática, forneceu a esta conjuntura um instrumento de unificação de políticas e de controlo dos opositores. O europeísmo ideológico conseguiu a subordinação dos socialistas a essa direita, materializada, por exemplo, pelo Tratado Orçamental, que lhes impõe uma visão da economia, da sociedade e do Estado, que, historicamente, nunca foi sua. A interpretação retrospectiva da História acrescentou um nexo causal, que demoniza certas políticas e legitima outras, ao mesmo tempo que assistimos à perda de memória no universo mediático e das redes sociais.

Com a proibição de qualquer veleidade keynesiana pelo Tratado, os socialistas perderam autonomia e sofreram derrotas sobre derrotas, mesmo quando ganharam, como Hollande, porque, entre uma imitação e o original, os eleitores preferem a realidade. A ausência de alternativa conduziu à crise de representação nas democracias europeias, ao crescimento da abstenção, ao afastamento dos partidos no poder da população e ao crescimento de movimentos anti-europeus e anti-sistema.

Em segundo lugar, existe uma enorme confusão entre a realidade e o poder. Aquilo que os Gregos encontraram à sua frente não foi a realidade, foi o poder (no sentido weberiano — a possibilidade de alguém obrigar outrem a proceder contra a sua vontade). A crise grega revelou, sem ambiguidade nem disfarces, a brutalidade do exercício do poder, a imposição punitiva duma política em que ninguém acredita a um governo e a um povo. Os Gregos vergados a um programa que todos sabem que não resulta não foram obrigados a aceitar a realidade, foram obrigados a submeter-se ao poder. A TINA não passa duma doutrina de submissão, de justificação do direito natural dos poderosos a exercerem o poder sem limites. Como é que podia ser de outra maneira, se «não há alternativa»?

Em terceiro lugar, para a realidade ser a da TINA, tem de se excluir dessa realidade as questões sociais e as que geram dúvidas sobre a moral da realidade.

Comecemos pelas últimas. Os partidários da realidade não se preocupam com as fugas de capital na Grécia: é a economia empreendedora a fugir para o exílio, desde que os comunistas ocuparam o poder. As fraudes bancárias, a corrupção, a fuga de capitais, os paraísos fiscais, as práticas de dumping fiscal, o planeamento fiscal, a fuga aos impostos pelos ricos, os offshores, as falências fraudulentas, etc. são sempre desculpabilizados, silenciados e minimizados. O senhor Juncker, depois do que fez no Luxemburgo, foi escolhido por Merkel, Rajoy e Passos para ser um presidente fraco da União.

Também não cabem na realidade as questões sociais. A pobreza, o desemprego, o empobrecimento, as disfunções sociais várias, a desagregação dos serviços públicos usados pelos mais necessitados, a inversão do elevador social, os refugiados, a emigração económica, a exclusão social, o aumento das desigualdades, etc. são meros danos colaterais. Na realidade, apenas interessam os empresários na moda, os que falam duma economia sem trabalhadores e dum povo que não existe.

Mas, contrariamente ao que pensam os arautos da realidade, a realidade real impõe-se à realidade ficcional e faz a História mover-se, independentemente dos esforços que eles façam para a fixar no ponto ideal do seu poder. As coisas estão a mudar e, como sempre, mudam de repente. A realidade não é a história acabada num certo modelo de economia, de sociedade e de poder. Bem pelo contrário, está a mover-se e mais depressa do que imaginam, para o lado de que há alternativas.

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