Por Gustavo Martins-Coelho

Sabes, puseste-me a pensar… A tua sorte é que é uma coisa que faço com prazer e sempre me dá para devanear um pouco. Mas raramente provém de fora esse ímpeto. Aconteceu contigo. Muita coisa.

Fui dar um passeio pós-prandial. Comigo. Sem mais. É bom pensar, enquanto se caminha. A passada imprime o ritmo ao fluxo das ideias; elas correm mais sincopadas.

És tão certa e tão errada! Debato-me entre querer-te e precisar de te evitar. Permaneço no limbo, enquanto tento fugir a este sentimento que, como um vento, me arrasta inexoravelmente para ti. És uma sugadora de homens. Suga-los integralmente, um por um, sempre até ao tutano, de cada vez com o mesmo fastio, nessa pose de odalisca que se perdeu num passeio campestre pelo bosque atrás da aldeia. Continuas a sugá-los, um por um, um a seguir ao outro, porque todos te sabem ao mesmo. Se encontrasses um de sabor diferente, provavelmente ficarias por aí. Mas os homens são todos iguais.

Atrevo-me a discordar. Em voz baixa e a medo, porque te conheço demasiado.

— Os homens não são todos iguais. Eu sou diferente! — disse eu. E todos os outros homens. Mas é só nisso que somos todos iguais.

E as mulheres? Acaso serão diferentes umas das outras? Tenho enormes dúvidas. A esse respeito e a todos os respeitos. Sei apenas que estamos condenados a não nos entendermos.

Chegado a esta parte, não sei o que fazer. Não acho maneira de avançar. Mas acho muitas outras coisas. É o que me vale e mantém entretido.

Queres saber o que acho?

Acho pequenas dúvidas insignificantes, no dia-a-dia. Não lhes acho a resposta, mas o importante é lançar as questões. Na estrada, a vítima de atropelamento também tem de vestir o colete reflector, ou é obrigação só do condutor que lhe passou por cima?

Acho pequenas sabedorias, escritas por aí nas paredes. Alguém assinalou que voar não é perigoso: perigoso é cair lá de cima. Aliás, o importante é conseguir fazer de aterragens exactamente o mesmo número, que se fez de descolagens.

Acho pequenos desapontamentos. Na linha de Aveiro, há a estação de Paramos. Em todos os comboios, há uma voz sem corpo, que nos fala. Os passageiros são esquizofrénicos mobilizados. É uma voz de senhora, que, a cada momento, nos anuncia qual é a próxima paragem. Adoro quando essa senhora diz:

— Próxima paragem: Paramos.

Mas nem sempre o comboio pára em Paramos. Há alguns que se dizem expresso, porque, em vez de demorarem quarenta e um minutos do Porto (São Bento) a Paramos, demoram trinta e três até Esmoriz, sem parar em Paramos. E eu fico um nadinha desapontado de cada vez que a senhora que faz os anúncios não diz:

— Próxima paragem: não paramos.

Por outro lado, sempre paramos em Ovar. Acho que os habitantes de Ovar são os ovários.

Uma vez, cruzei-me com um grupo de ovários bêbados no metro, que me ensinaram que, em Ovar, se vêem os comboios a passar e o pão-de-ló a fabricar, ao som duma aguarela do Brasil.

Também no metro somos esquizofrénicos mobilizados. Uma outra senhora, agarrada ao altifalante, anuncia duas vezes a próxima paragem. Deve ter vocação para distribuir correspondência. Só que, em vez de tocar duas vezes, anuncia a paragem duas vezes — a primeira baixinho, timidamente, como quem não quer incomodar; a segunda em voz alta, para toda a gente ouvir e perceber que, se calhar, chegou ao seu destino. Quando chegamos a Francos, oiço a senhora do altifalante dizer que a próxima paragem é Frangos. Deve ser um problema de pronúncia. Tal como o da Judite de Sousa [1].

Acho estas coisas pequeninas, insignificantes, mas sempre acabo por devolver o que acho, porque não é meu.

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