Por Hélder Oliveira Coelho


Já um dia comecei uma crónica sobre a mulher de César [1]. Hoje, é dia para falar da madrasta. Nos contos infantis, a madrasta é sempre retratada como sendo a má da fita. Ainda que saibamos que nem sempre é assim, a mãe simboliza o amor incondicional; a madrasta simboliza o ciúme, a intriga e a inveja. Num país em que 70% dos casórios acabam em divórcio, é natural que haja por aí muita madrasta. Contudo, pelo sim, pelo não, debrucemo-nos apenas sobre o simbolismo do conto infantil e esqueçamos a figura real.

No conto infantil, a madrasta transporta um veneno mortal e sanguinário. Organiza planos maquiavélicos para boicotar a vida dos que deveria acarinhar. Tece teias de calúnia, para que possa sobrepor-se a quem tem efectivo valor.

As crianças habituam-se a identificar estes conceitos de vilania e rapidamente se inspiram na justiça, no trabalho, na pureza, na alegria contagiante dos heróis. Chegada à idade adulta, esta dualidade antagónica esvai-se. Rapidamente deixamos de saber onde vive a madrasta e quem é o herói. Sobram os efeitos nefastos desta incapacidade. Se os heróis não se reconhecem, as madrastas encapotadas têm todo o espaço que desejam para libertar a peçonha e inquinar o mundo que as rodeia. Os estragos do veneno são incalculáveis. O egoísmo, o ciúme, a inveja, a intriga secam toda a riqueza que possa tentar implantar-se.

A Guarda tem uma cerca de ervas daninhas que não se vêem, nem se sentem, tal é a sua insignificância, mas que vão apodrecendo tudo o que floresce. Um bolor bafiento, velho e mesquinho, que apodrece e esgota a vitalidade e a energia de quem não presta vassalagem. Por vezes, nem é a vassalagem que importa. É o ciúme mortífero de reconhecer que há quem possa e quem saiba mais. Esta sede envenenada acaba por fazer definhar a terra e as suas gentes. Quando isto acontece na intriga diária palaciana, não há como responder. É um inimigo sem cara, sem corpo. É um estado de espírito instalado, que perpetua o nevoeiro que impede de enxergar mais longe. A mentira que cega ou que faz acreditar que não é possível ver para além dos cercos destes abutres sanguinários.

O discurso é simples. Gera-se a dúvida. Um ataque ad hominem, falso e impiedoso. Geração após geração, assim tem acontecido. Os barões, os marqueses, os homens de bem, esses são obviamente intocados. Chamam a si uma aura majestática. Por certo Senhor de Tal tem razão. Se Senhor de Tal o diz, é porque é verdade. Mas ninguém olha para o Senhor de Tal e pergunta:

— Que faz ele?

Os barões alimentam os seus filhos medíocres no mesmo mofo que produzem. E quem areja as portas só pode ser criminoso. É o bolor que nos matará a fome. Sempre assim foi, sempre assim será!

Quem ceifa o trigo e faz o pão tem interesses obscuros. É uma criatura vil. Ou certamente vendeu a alma ao diabo. Coma-se para sempre este bolor.

Feita a análise da figura da madrasta, certo é que tudo isto foi uma criação fantasiosa minha. Nunca madrastas envenenaram ou espalharam o seu bolor por terras da Beira. Cabe-me agora falar de coisas mais sérias.

Se a intriga palaciana não tem rosto, as instituições democráticas têm — ou, pelo menos, deveriam ter — a obrigação de cumprir as normas da República. A Constituição é a fonte guia para a acção democrática. Mesmo que não se acredite nela, o mínimo que nos é exigido é que a respeitemos.

Passarei a citar o artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa:

  1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
  2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Há não muitos dias, ouvi na Assembleia Municipal da minha cidade um deputado eleito, sob as regras da mesma Constituição da qual extraí este artigo, dizer algo como:

— Fulano de Tal, que ocupa lugar tal, nem sequer é da Guarda — como se fosse condição necessária, para ocupar lugares públicos, ser-se do território x ou y. A declaração foi obviamente repudiada. Mas não escutei ninguém dizer por que razão era impreterível que se repudiasse tal afirmação. Já no passado eu a escutei. Mas, por força da ignorância ou do bolor que me alimentava, também eu cegava face a estes inenarráveis golpes à cidadania. Este senhor deputado — nem sei de que partido, sei que eleito, à semelhança do que noutros momentos se diz e faz, com a legitimidade que a liberdade de expressão nos traz para a conversa de café, esses onde se tece quem é gente de bem e quem são os forasteiros e burgueses que não podem alcançar as castas puras da gente de bem — esse senhor deputado, numa assembleia municipal, fez um discurso anticonstitucional. Por certo aplaudido, por quem, envenenado da soberba bafienta, chama a si mais direitos do que dá aos outros, porque nasceu, viveu, ou cresceu aqui.

Também eu posso ser vítima de tamanha vileza e tirania. É verdade que aqui nasci. Mas não é menos verdade que, estando fora há mais duma década, denuncio e verbalizo bem alto os vícios dos barões ocultos da cidade. O veneno que mata o progresso e a liberdade. Um veneno tão forte, que faz com que se aplaudam discursos contra a própria Constituição que nos rege! Amanhã será comigo. Também eu terei de me calar, porque não sou um puro sangue, porque não me vendo ao servilismo do bolor.

Não é um bolor com cara, com partido, com alma. É um bolor transversal.

Façamos um exercício de redução ao absurdo. Imagine-se, se alguém for capaz, que o artigo 13.º não existia. Agora, imagine-se que alguém apresenta o mesmo argumento: «fulano de tal não tem o direito de ocupar tal lugar porque não é daqui». A pergunta é: fulano de tal é ou não competente para o lugar? Se a resposta for sim, então, saber de onde ele vem nada importa. Imagine-se que Einstein ressuscitava e queria vir trabalhar para aqui. Gostava de ver o primeiro a levantar-se para dizer:

— Esse senhor não é daqui!

Eu queria que as gentes fossem avaliadas pelo que valem. Longe da inveja dos incompetentes, que nada mais conseguem para lá da sua pequenez.

Zeca Afonso brindou-nos com centos de letras que denunciavam a incúria do bolor da ditadura. Agora, como antes, a denúncia do ócio e a ganância do poder (ou de quem o deseja), em detrimento do bem do povo, deve ser denunciada.

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