Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do José Soeiro, publicado no jornal «Expresso» [1].

Há três tipos de mentiras: as comuns, as sagradas e as estatísticas. O anterior Governo fartou-se de usar a última (até que, mesmo esta, talvez por acção do diabo, deixou de se prestar a isso). Por exemplo, a propósito da taxa de desemprego, dizia o Governo que Portugal se encontrava numa trajectória de recuperação. Mas a verdade é que a receita aplicada pelo anterior Governo foi  desastrosa.

Para começar, as estatísticas sobre o desemprego eram um logro: não contabilizavam as pessoas que, não estando empregadas, deixaram de procurar emprego (243.000, em 2015, segundo o INE [2]), nem os desempregados em «programas ocupacionais» (cerca de 158.000). Se somássemos ainda o «subemprego», a taxa de desemprego mais que duplicaria.

Depois, as pessoas desempregadas estavam cada vez mais desprotegidas. Em maio de 2015, 58% dos desempregados não tinha direito a subsídio de desemprego, enquanto, no início da década de 2000, essa percentagem não chegava a 20%. Além disso, o valor médio do subsídio regredira a níveis de 1996. O corte de 10% aplicado pelo Governo ao fim de seis meses revela o modo punitivo como a direita olha para quem descontou e perdeu o emprego.

Acresce que, nos últimos anos, perdemos população activa como nunca. Uma das explicações é a emigração. Nunca, nos últimos quarenta anos, tínhamos tido tanta gente expulsa do país pelo desemprego.

Mas perdemos também população empregada. Entre 2011 e 2015, perdemos 219.000 empregos [3]. A taxa de desemprego só era menor, porque havia menos gente, não porque houvesse mais trabalho. Ou seja, a austeridade apenas gerou destruição de emprego.

Além disso, o povo emprego que foi criado era de salários cada vez mais baixos e precário. Um terço do emprego criado eram estágios, um mecanismo de financiamento das empresas e de abaixamento de salários, na esmagadora maioria dos casos, não permitiam ficar a trabalhar na empresa. Somem-se os contratos emprego-inserção, o trabalho temporário (em crescimento) e o trabalho parcial involuntário e temos o retrato do país, no final do governo da direita: o desemprego, a precariedade e o abuso. Era este o futuro a que nos queriam amarrados.

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