Por Satoshi Kanazawa [a]

Em todos os países industrializados, as mulheres, em média, ganham menos dinheiro e atingem um estatuto profissional mais baixo do que os homens. Isto é verdade em todos os sectores, entre quadros superiores e trabalhadores braçais, e em economias capitalistas, socialistas e comunistas. Porquê?

A diferença entre os rendimentos de homens e mulheres é uma das preocupações centrais da economia e da sociologia. Os economistas e os sociólogos identificam três partes diversas, na diferença total entre os salários de homens e mulheres. Primeiro, há a diferença no que eles chamam de «capital humano» — formação, qualificações profissionais, experiência e outros traços individuais, que afectam a produtividade e o desempenho no trabalho. Em segundo lugar, as diferenças salariais podem ser devidas à segregação ocupacional por sexo — o facto de que homens e mulheres tendem a ocupar postos de trabalho diferentes. Os homens tendem a ocupar empregos braçais (operários fabris, da construção, motoristas de camião), enquanto as mulheres tendem a ocupar cargos «femininos» (secretariado, enfermagem, ensino). Em terceiro lugar, a diferença entre os salários pode ser devida à discriminação sexual, em que os empregadores pagam de maneira diferente a homens e a mulheres igualmente qualificados e que fazem o mesmo trabalho.

Enquanto a diferença salarial entre sexos for devida às diferenças no capital humano e na produtividade, é considerada justa pela maioria dos cientistas sociais. No que diz respeito à diferença de sexo em termos de remuneração resultante da existência de empregos mais «masculinos» e outros mais «femininos», pagar a todos os trabalhadores duma determinada profissão de modo igual não eliminará a diferença de rendimento entre sexos. Pagar os mesmos salários aos motoristas de camião do sexo masculino e feminino e aos secretários do sexo masculino e feminino não elimina a diferença entre os salários médios de homens e mulheres, se todos os motoristas de camião ganharem mais do que os secretários e a maioria dos camionistas forem homens, enquanto a maioria das secretárias forem do sexo feminino. A existência de segregação sexual profissional requer, portanto, a consideração de «valor comparável».

Como estão profundamente ligados às ciências sociais tradicionais e completamente alheios à psicologia evolutiva, a maioria dos economistas e dos sociólogos assumem que homens e mulheres são, em geral, idênticos, no  que diz respeito às suas preferências, aos seus valores e aos seus desejos. Por conseguinte, presumem que qualquer diferença salarial entre sexos que não seja devida a diferenças de capital humano ou de segregação sexual no trabalho deve ser devida à discriminação dos empregadores. Contudo, a existência de discriminação sempre tem de ser deduzida a partir dos dados estatísticos e não pode ser directamente observada. Os cientistas sociais não conseguem observar directamente um patrão a dizer aos empregados:

— A si, pago-lhe mais, porque é homem; e, a si, pago-lhe menos, porque é mulher.

Nem os empregadores admitirão tal prática, se realmente a efectuarem.

A conclusão de que há discriminação sexual por parte dos empregadores depende exclusivamente do pressuposto de que homens e mulheres são, em geral, idênticos, excepto na sua quantidade de capital humano (educação, experiência profissional, qualificações) e nos postos de trabalho que ocupam. Se, por outro lado, homens e mulheres com o mesmo capital humano e nos mesmos postos de trabalho forem todavia intrínseca e fundamentalmente diferentes em traços que afectam os seus rendimentos, como, por exemplo, na sua preferência e desejo de ganhar dinheiro, a discriminação deixa de ser necessária para explicar a diferença entre os salários de homens e mulheres. Se os homens e as mulheres são diferentes nas suas preferências e disposições internas, tais como o seu desejo de ganhar dinheiro, então não é necessário recorrer a factores externos, tais como a discriminação, para explicar a diferença de rendimento entre homens e mulheres.

No meu próximo artigo, vou mostrar como a psicologia evolutiva pode explicar a diferença salarial entre sexos sem recorrer à discriminação por parte dos empregadores.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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