Por Gustavo Martins-Coelho

Acabei de editar um artigo na coluna «Noutras ruas» [1]. Para quem não segue regularmente a «Rua da Constituição» [2], a coluna «Noutras ruas» [3] publica resumos de artigos publicados anteriormente noutras fontes, geralmente jornais ou blogues, os quais são por mim seleccionados, por me parecerem suficientemente interessantes para merecerem a sua divulgação (e preservação, neste mundo virtual, onde, quando regressamos a uma página — contendo uma notícia ou qualquer outro material escrito ou audiovisual — anteriormente vista e que queremos rever, a mesma já mudou de sítio).

O processo é simples: quando encontro um artigo que preenche os meus mais ou menos maleáveis requisitos, guardo-o e, logo que possível, resumo-o e edito-o, deixando, como cabeçalho, uma nota referente a isso mesmo: que «este artigo é um resumo do texto original», identificando de seguida o autor e o local onde foi originalmente publicado.

Ora, este último fez-me suar as estopinhas: não conseguia descortinar o seu autor em lado algum! Talvez estivesse distraído, talvez o leitor me ajude a conseguir, se der uma espreitadela ao artigo original [4].

Não conseguiu, pois não? Não. O artigo — um artigo de opinião — não está assinado. Não é caso único [5, 6, 7]. Outros artigos há, todavia, que estão assinados; e são muitos mais, por comparação. Serão estes o resultado dum erro descuidado? Talvez sim, embora eu tenha para mim que sejam reminiscências dum passado anterior à última actualização gráfica da página do «Sol» [8], que deve ter lá mexido num pedaço qualquer da base de dados e apagou as referências aos autores. Duma forma ou doutra, contudo, factos são factos: chegámos ao ponto em que os jornais, propositadamente ou — mais provavelmente — por engano, publicam peças de opinião não assinadas, ao bom estilo panfletário dos revolucionários clandestinos de outrora. Poderia ser irrelevante, mas não é. Porque, para o leitor que acompanha a «Rua da Constituição» [2] há tempo suficiente, não será novidade a preocupação que eu e outros colunistas [9] manifestámos, quanto à qualidade periclitante do jornalismo em Portugal [10, 11, 12, 13, 14, 15, 16]; e este é só mais um exemplo da displicência, da despreocupação com que as notícias são publicadas pela nossa imprensa.

Mas é também importante, porque me deu ensejo de me lançar sobre outros dois exemplos do que considero ser mau jornalismo e que tinha aqui guardados há já um tempo considerável, no baú das «coisas que gostaria de comentar um dia, mas ainda não tive tempo».

O primeiro exemplo era para ser uma notícia do «Diário de Notícias». Contudo, a notícia já não está disponível, o que me traz a um outro inconveniente deste admirável mundo novo do jornalismo moderno e online: acabaram-se os arquivos noticiosos. Bom, não se acabaram tout court; na verdade, o que aconteceu foi que as nossas expectativas foram defraudadas. Senão, vejamos. Antigamente, para alguém poder consultar uma notícia duma edição passada dum jornal, era necessária uma de duas coisas: ou que a pessoa que queria fazer a consulta tivesse guardado as edições do respectivo jornal (o que criava bibliotecas pessoais de dimensão considerável), ou que o interessado se deslocasse até à redacção do jornal e pedisse para consultar o arquivo do próprio periódico. Com o advento da Internet, seria de esperar que esses obstáculos fossem removidos e que a consulta do arquivo noticioso estivesse à distância dum clique. Porém, tal não é verdade: a cada mudança de aspecto dos sítios dos jornais, ao que parece, tudo o que está para trás deixa de estar acessível. Passou-se assim com o «i», há uns tempos [17] (quem é que, no seu perfeito juízo, dá, como nome dum jornal, uma única letra, ainda por cima minúscula?), e passou-se também com o «Diário de Notícias». Portanto, a notícia que eu pretendia comentar já não está disponível no sítio do jornal. Talvez esteja disponível no arquivo, na sede do «Diário de Notícias», no que é um desperdício do potencial da Internet como veículo de informação e um reflexo do infeliz imediatismo em que se transformaram as nossas vidas: ninguém sente falta do arquivo, porque o passado se tornou irrelevante — apenas o presente importa.

Felizmente, existe um grupo de pessoas que pensa como eu e decidiu criar um arquivo do que vai acontecendo na Internet, para preservar a memória que insistem em apagar [18]. Dito isto, se o leitor desejar ler a notícia original, poderá fazê-lo nesse arquivo [19]. Se não desejar, eu resumo: uma engenheira da Google listou os salários dos empregados e descobriu que havia diferenças salariais inexplicáveis, se não levássemos em conta o sexo e a raça dos empregados. Ora bem, até aqui, tudo bem. Ou tudo mal, mas não é sobre discriminação laboral que pretendo falar hoje. Qual é o problema, então? Esta passagem da notícia (sublinhado meu):

O tema interessou-os tanto que a engenheira afro-americana Erica Baker decidiu criar uma tabela numa folha de cálculo e publicá-la na rede interna, juntamente com um formulário para outros colaboradores preencherem se também quisessem adicionar quanto ganham.

Para o efeito da notícia, é relevante a cor da pele da senhora? Faria alguma diferença, para a informação que se pretende noticiar — que a Google discrimina os seus empregados —, se, em vez duma engenheira negra, tivesse sido um programador branco a levantar cabelo? Tenho as minhas dúvidas. Claro que tem mais impacto mediático ter sido uma mulher e negra; fica bem que a personagem principal seja proveniente duma minoria. Mas foi por ser mulher ou por ser negra que a engenheira Erica Baker fez o que fez? Ou foi por ser a mais interessada no tema? Ou foi por ser a única que, naquele momento, não estava assoberbada de trabalho e arranjou o tempo para se dedicar ao assunto? A notícia não diz — nem é relevante, a bem dizer. Ponha a mão na consciência, senhora jornalista Ana Rita Guerra (que escreveu esta notícia): se o protagonista fosse um homem branco, teria escrito tal informação? Então, para que o fez, em se tratando duma mulher negra? Isso é, também, uma forma de discriminação.

O segundo exemplo fica para o próximo artigo, porque este, com tantos percalços e considerandos, já vai longo.

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