Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Diogo Faro, publicado no jornal «Sol» [1].

Parece que, agora, temos de perdoar tudo às crianças, porque elas são isso mesmo — crianças, que precisam de se expressar e de brincar, mesmo que isso passe por atirar areia para cima de estranhos na praia, ou berrar sem motivo em restaurantes. Aparentemente, educar uma criança não passa por ensiná-los a respeitar aqueles com quem vive em sociedade. Isso é castração criativa. Ser mal-educado, impertinente e egoísta são talentos a cultivar.

Os meus pais não me deixaram expressar-me convenientemente, em criança: na praia, obrigavam-me a caminhar devagar, quando passava ao lado de pessoas estendidas na toalha. Se eu tivesse corrido por lá fora, talvez hoje fosse campeão do mundo de futebol de praia. Se, por acidente, atirava areia a alguém, obrigavam-me a pedir desculpa, desautorizando-me à frente de adultos estranhos e castrando o poder que eu estava a construir, para dominar o mundo.

E quem vê mal nas crianças serem levadas num pedestal e ensinadas a pisar os outros, a caminho de serem adultos insuportáveis, despojados de sentido de vida em sociedade e de respeito pelos outros, não passa dum energúmeno, que não entende que é assim que os grandes se formam e ficam na História.

Certa vez, caí na asneira de criticar, no Facebook, as criancinhas que passam por mim a correr na praia e me enchem de areia, sem que os pais as chamem à atenção, e me dão vontade de que caiam de boca e almocem dois quilos da mesma. A reacção dalguns pais fez-me pensar e aqui me redimo.

Ninguém morre por levar com uns grãos de areia. Pelo contrário, quero que me pisem mesmo na cabeça, que continuem a correr, que dêem um pontapé no estômago de outra criança que se atreva no seu caminho, que chapinhem ao lado da velhota que está a tentar entrar devagarinho na água por causa das dores nos ossos e, por fim, que matem uma gaivota que estava ali em dificuldades no mar. As crianças podem tudo o que lhes apetecer, porque o mundo precisa de adultos assim.

Mais: esqueçamos o «por favor» e o «obrigado», que se empurre em vez de pedir licença, que se roube em vez comprar e que ordene em vez de pedir.

Parabéns aos pais que têm a coragem de educar assim os filhos.

Advertisements