Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Carlos Barros, publicado na revista «P3» [1].

Falamos muito do bullying nas escolas, entre os jovens, mas estamos a descurar o gravíssimo bullying nos adultos: do desemprego.

Estar desempregado remete a pessoa para uma situação complicada de sobrevivência económica, alteração de hábitos e rotinas e sensação de desadequação e inadaptação. Mas não só.

Aos jovens, foi dada uma educação muito superior à da geração anterior e ensinado que tudo é possível, desde que se trabalhe arduamente. No final, porém, o que se quer ser não é compatível com o que se pode ser.

Às pessoas na meia-idade, foi-lhes prometida uma vida sem provações maiores que aquelas que viveram na infância. Agora, enfrentam desemprego de longa duração, não conseguem apoiar as famílias que se desmoronam e são demasiado velhos para recomeçar a vida, mas demasiado novos para se aposentarem.

Aos aposentados, foi vendida a ideia de que, depois duma vida de trabalho, teriam como recompensa o envelhecimento activo e com tempo para serem felizes. Na prática, muitos têm de servir de suporte aos filhos, netos ou sobrinhos, para que estes possam construir os seus projectos de vida ou, meramente, sobreviver.

O Estado e as empresas aproveitam o desespero para impor a moralidade de que se acham donos. Muitos daqueles que, após o 25 de Abril, construíram pequenos impérios afirmam que toda a gente consegue emprego, desde que queira, o que é mentira: os tempos e as condições são outros; os abastados continuam insensíveis aos desprotegidos (a não ser para benefício da sua imagem caridosa e quase santa); o Estado permanece na ideia de que as pessoas são apenas uma taxa de desemprego, que baixa com medidas de recrutamento de eleitores e com muito empreendedorismo e inovação. Isto é bullying e as vítimas são os desempregados.

Advertisements