Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Eric Randolph, publicado no jornal «Público» [1].

A globalização aboliu as fronteiras para os mercados. Mas, para os seres humanos, foram erguidos muros em todo o mundo, por causa da segurança e do desejo de conter a imigração. Quando caiu o muro de Berlim, havia dezasseis muros a defender fronteiras no mundo. Hoje há 65, construídos ou em vias de ficarem prontos. São cada vez mais populares entre os políticos desejosos de parecerem firmes em matérias de migração e segurança.

Porém, a sua eficácia é relativa. Dão uma ilusão de segurança, mas não uma verdadeira segurança. Apesar destes obstáculos, os migrantes conseguem passar, a cocaína nunca faltou em Manhattan, nem os cigarros de contrabando em Montmartre. Os números de asilo ou os ataques terroristas não diminuíram. Nem o muro de Berlim conseguiu ser totalmente estanque, apesar dos sentinelas que disparavam a matar. Os muros apelam aos velhos mitos das fronteiras, ignorando que a cooperação, a diplomacia e a partilha de informação são mais eficazes a longo prazo.

Os muros nada mudam nas causas profundas da insegurança ou da imigração; levam apenas os grupos a adaptar-se. O encerramento das fronteiras leva os imigrantes para desertos ou embarcações no Mediterrâneo, aumentando o número de vítimas mortais.

Além disso, as consequências psicológicas destas barreiras não podem ser ignoradas. Por exemplo, na tribo de índios americanos Tohono O’odham, morreram pessoas, aparentemente de tristeza, quando o muro que separa o México dos Estados Unidos lhe cortou o acesso a lugares sagrados. Em Berlim, as famílias que viviam coladas ao muro apresentavam fortes taxas de depressão, alcoolismo e violência familiar.

Algumas barreiras

Hungria — são 177 km, ao longo da fronteira com a Sérvia.

Espanha/Marrocos — os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilha, em Marrocos, estão cercados por barreiras, que muitos morreram ao tentar ultrapassar.

Grécia/Turquia — o muro de Evros foi edificado em 2012, para evitar a entrada de migrantes na União Europeia.

Arábia Saudita/Iraque — perante a ameaça do Estado Islâmico, os sauditas estão a alargar uma barreira que já existia, de sete metros de altura, para 900 quilómetros; terá 78 postos de observação, oito centros de comandos e 32 postos de reacção rápida.

Israel — a construção do muro entre Israel e os territórios ocupados começou em 2002, com o objectivo de proteger o país de ataques palestinianos, mas os detractores dizem que foi um pretexto para confiscar terras e estabelecer uma fronteira de facto, violando acordos.

EUA/México — o presidente eleito tem a promessa de transformar as barreiras actualmente existentes num muro.

Índia/Bangladexe — em 1993, a Índia isolou a fronteira com o Bangladexe com arame farpado, para tentar reduzir o número de imigrantes, abrindo a disputa sobre o traçado da fronteira e deixando cem mil pessoas em terra de ninguém, sem serviços públicos.

Chipre — a capital, Nicósia, continua dividida por um muro entre a parte grega e a parte turca, desde a invasão turca de 1974.

Irlanda do Norte — há em Belfaste 99 «linhas de paz», que separam católicos e protestantes; as mais antigas são de 1969 e apesar dos acordos de paz, o número aumentou.

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