Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original o Rafael Barbosa, publicado no «Jornal de Notícias» [1].

Os políticos vivem numa espécie de realidade virtual das estatísticas e números, com os quais acenam, para afirmar que o país está melhor, desde que a troika foi embora.

Mas, no dia-a-dia, o que vemos é o velho de setenta anos de idade que, depois de uma vida de trabalho, merecia um resto de vida tranquilo, mas cujas poupanças e pensão de reforma se transformaram na tábua de salvação do filho mais novo, que já passou dos trinta, mas, arquitecto incapaz de arranjar emprego, ainda vive com os pais e à custa destes, e do filho mais velho, com mais de quarenta, engenheiro desempregado desde que a empresa fechou, com quatro filhos, a quem o pai paga a prestação e as contas da casa.

Os sociólogos chamam-lhe «solidariedade intergeracional»; dizem que é graças a ela que o impacto da crise tenha sido atenuado, apesar do corte nas pensões que o anterior Governo impôs com zelo. Este esforço assegura a viabilidade de muitas famílias no presente, mas é irreproduzível a prazo, porque os filhos que, actualmente, dependem da ajuda dos pais, não vão conseguir apoiar da mesma forma os seus próprios filhos e netos, devido aos seus próprios percursos profissionais fragmentados e precários.

Até porque um trabalhador que tenha conseguido reformar-se em 2014 obteve, em média, uma pensão equivalente a 63 % do salário, mas um trabalhador que se reforme dentro de quinze anos conseguirá uma pensão equivalente a 43 % do salário. Ao défice público e orçamental teremos de juntar o défice de solidariedade, que ainda não aparece nas estatísticas, nem nas análises da Unidade Técnica de Apoio Orçamental, mas que é ainda mais importante para medir as possibilidades de assegurar dignidade na vida real.

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