Por Gustavo Martins-Coelho

Quarta-feira, 16 de Agosto de 2006. O primeiro avistamento entre o Guê a o Agá teve lugar na plataforma três da estação de Campanhã, no Porto. Já antes disso tinha decorrido o primeiro encontro imediato entre o Guê e um indivíduo — que por acaso sucedia ser de etnia cigana, mas poderia ser de qualquer outra e nem sequer isso é relevante para a história que ora se pretende narrar, porque temos de dizer política correctamente que somos todos iguais, mesmo quando somos diferentes — indivíduo esse que lhe pediu educadamente, mas numa língua totalmente incompreensível (ou seria Português monossilábico; o que é certo é que a única palavra que o Guê descortinou no meio daquela algaraviada foi «ajuda», como se verá logo após este parêntesis), ajuda para carregar dois sacos contendo os seus haveres (seus, do indivíduo em questão, não do Guê) — ou seriam talvez de outrem, mas isso agora não interessa nada, como dizia essa grande senhora da televisão nesse grande programa que marcou indelevelmente o panorama audiovisual português (não sendo relevante para a história se tal marca foi positiva ou negativa). O Guê explicou então ao indivíduo cuja etnia é irrelevante para a história que podia utilizar o elevador e o indivíduo cuja etnia é irrelevante para a história compreendeu que os destinos de ambos se apartavam aí, porque se dirigiam para plataformas diferentes. Uma história que, como já dissemos, poderia ter-se passado com qualquer etnia, pelo que a referência ao facto do interlocutor do Guê ser cigano nada acrescenta à narrativa e poderia mesmo ser considerada racista, não fora o facto do senhor ser, de facto, cigano, e nessa palavra caber todo um conjunto de atributos físicos, cuja descrição seria demasiado perifrástica.

Mas não foi só o Guê que viveu as suas primeiras aventuras antes da viagem começar! Também o Agá se deleitou com os pontos negros que salpicaram o seu percurso, o primeiro dos quais, de negro, só tinha a alma, porque, embora se dissesse angolano, tinha mais aspecto de colono do que de colonizado. Já na simpática cidade de Aveiro, onde o Agá «transbordou» de comboio para tomar aquele que se dirigia ao Porto, o colono contou toda a história da sua vida, das suas esposas e das filhas mulatas. Um pouco mais tarde, o segundo ponto negro foi, na verdade, bastante colorido, da cor das roupas de marca das meninas que exorcizavam os seus males nas costas dos estudantes de Medicina.

O encontro em Campanhã foi caloroso, o almoço saboroso e a viagem até Guimarães prazeirosa. Fosse por ser intrinsecamente rápida, ou porque a conversa ia boa, o certo é que não demos pelo tempo — e num instantinho chegávamos ao destino.

Não menos certo é que, em Guimarães, chovia a bom chover, o que, aliado à ausência de rodas nas malas do Agá e ao desconhecimento da localização exacta da Pousada da Juventude, tornou o táxi estacionado à porta da estação uma excelente e apetecível opção. Faltava era um taxista, que viemos a descobrir depois ser o homenzinho por quem tínhamos passado segundos antes, enquanto dizíamos um para o outro que o melhor era apanharmos um táxi, mas que só se dignou a abrir-nos a porta do dito cujo depois de acabar de ler o importante artigo do jornal desportivo que tinha em mãos. Prioridades — cada um tem liberdade de estabelecer as suas!

Chegados à Pousada, como era ainda cedo para fazer o registo (vulgo check-in, porque um turista até parece um executivo, se fizer check-in, em vez de se registar na recepção), livrámo-nos das bagagens, que ficaram guardadas na recepção, e, depois de nos munirmos dum mapa da cidade, fomos fazer um reconhecimento das redondezas. Esse primeiro reconhecimento do terreno levou-nos até uma confeitaria, cujo dono tinha todo o jeito para político: prometeu levar um café até à mesa, mas nós tivemos tempo de nos sentarmos, conversarmos, levantarmo-nos e irmos embora — sem nunca o café ter surgido!

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