Por Jarrett Walker [a]

Desde que comecei a ler seriamente os blogues sobre transporte colectivo nos Estados Unidos, tornou-se para mim evidente que muitos activistas dos EUA têm um problema com o termo «Bus Rapid Transit», ou serviço de autocarros rápidos. O meu objectivo com o meu artigo sobre o sistema de Brisbane [2] foi ilustrar uma visão totalmente diferente do BRT a que os americanos estão habituados e assim ajudar os activistas dos EUA a alargar as suas noções sobre o que o BRT pode significar.

Alguns dos comentários que recebi sugerem que os activistas norte-americanos estão muito traumatizados pela forma como o BRT tem sido usado no planeamento nos EUA, especialmente durante o governo Bush. Um leitor afirma que, nos EUA, o «BRT  é frequentemente um cavalo de Tróia proposto por aqueles que preferem não financiar qualquer transporte público razoável.» Ele continua:

Pareces esquecer, Jarrett, quantas forças políticas com poder nos Estados Unidos se opõem ao transporte público sob qualquer forma, mas particularmente o transporte ferroviário, e simplesmente querem construir auto-estrada após auto-estrada após… auto-estrada! […] Empresas de petróleo, Detroit. Direitas que vêem qualquer transporte público como «socialismo». Eleitores rurais que vêem as grandes cidades como Sodoma e Gomorra e que não querem gastar um centavo em projectos de infraestrutura urbana de qualquer tipo. […] Departamentos estaduais de transporte, muitos dos quais têm culturas enormemente autocentradas. E, durante os últimos oito anos, o departamento de transportes do Bush.

Para essas pessoas, o objectivo de defender o BRT em vez de metro ligeiro é que ele pode ser feito a baixo custo e que se lixe a eficácia. É por isso que os sistemas de BRT nos Estados Unidos são todos de segunda categoria — esses sistemas são cedências políticas, para começar. Não são projectados para serem útil (especialmente para os passageiros discricionários), são projectados para serem baratos. São desenhados para deixar os hippies, os verdes e tal apanharem o autocarro e sentirem que estão a fazer a parte deles, enquanto os Real Americans™ conduzem os seus Hummers para o trabalho, como sempre.

Este é o contexto político em que os partidários do transporte colectivo operam, nos EUA.

Outro leitor frequente, por correio electrónico, sugeriu:

O problema não são as melhorias, é a ideia de BRT, a ideia de que os defensores do transporte colectivo devem parar de querer comboios. É o que Lakoff chama de mau enquadramento, semelhante aos defensores da luta contra a pobreza que pedem ajuda para os que abusam do sistema, ou activistas da paz a dizer se odeiam a liberdade.

A única razão para usar o termo BRT é conquistar o pequeno subconjunto de defensores do transporte colectivo e de funcionários governamentais que estão convencidos de que esta é a onda do futuro. Como palavra de ordem, pode abrir portas. Mas, para lá da moda, é uma má ideia.

É só uma palavra. Tente apresentar exactamente os mesmos argumentos sem ela e terá uma reacção diferente.

Conselho sábio, provavelmente, mas eu tenho três objecções:

  • Embora eu seja norte-americano de nascimento e educação, não estou nos Estados Unidos, nem estou a escrever exclusivamente para leitores norte-americanos. Gostaria de que todos os leitores pudessem vir a esta coluna para uma visão relativamente global — ou pelo menos uma visão que está a par da prática do mundo desenvolvido. O trauma que os leitores dos EUA relatam sobre o termo BRT parece ser uma coisa norte-americana, enraizada especialmente na experiência recente com a política da Administração Federal do Transporte Colectivo sob o governo Bush, embora haja uma história mais longa de pensamento dominado pela estrada por trás dele. Sei que é inútil tentar argumentar com o trauma e que as pessoas que usariam o BRT como cavalo de batalha contra a auto-estrada ou agendas anti-transporte colectivo ainda estão connosco. Mas eu também quero lembrar suavemente aos leitores norte-americanos que a administração Bush é História e que este pode ser um bom momento para relaxarmos os nossos punhos um pouco.
  • Eu gosto de palavras que dizem o que significam, e BRT diz exactamente o que quero dizer. Esta coluna tem uma definição específica da palavra «rápido» [3]. Aqui, significa sempre «frequente, com paragens amplamente espaçadas, para serviço relativamente rápido.» É uma das várias palavras que eu uso com cuidado, para tentar definir categorias claras e significativas de serviço que não especificam modo, ou seja, autocarro ou comboio. A autoridade para o meu uso da palavra vem da frase comum «transporte colectivo rápido», que geralmente tem esse significado. Bem, às vezes o «transporte colectivo rápido» é servido por autocarro e, se não podemos chamar-lhe «serviço de autocarros rápidos», não tenho certeza se podemos falar claramente sobre isso.
  • Faça eu o que fizer, o termo BRT não vai desaparecer. Há um ponto em muitas lutas políticas em que se aceita que uma palavra-chave usada por um oponente é realmente importante e vale a pena lutar pelo seu controlo, em vez de apenas tentar suprimi-la. Eu suspeito que a aparente clareza do termo BRT vai mantê-lo no discurso, de modo que fazemos melhor em exigir padrões mais elevados de BRT, do que em tentar mudar o assunto, ou mesmo mudar a palavra. Podemos fazer isso insistindo, sempre que for mencionado, que o orador esclareça a que tipo de BRT se refere. Em via exclusiva ou trânsito misto? Desnivelado, ou com passagens de nível (nesse campo, devemos fazer as mesmas perguntas ao discutir também o metro ligeiro, porque, como vimos em Los Angeles [4], é possível criar uma linha de metro ligeiro que é mais lenta do que um autocarro rápido em tráfego misto).

O verdadeiro desafio do termo BRT é que é uma grande categoria — demasiado grande, na verdade. Precisamos doutras palavras para os diferentes produtos dentro dele, sendo que todos eles podem ser boas opções, nalgumas situações. Como eu mencionei no último artigo [5], há pelo menos três «camadas» de qualidade fundamentalmente diferentes, que são definidas pelo mesmo termo:

  • Em via exclusiva e com separação de nível;
  • Em via exclusiva, mas com passagens de nível e sinais;
  • Em via mista, inserido no trânsito, mas com maior espaçamento entre paragens e prioridade de sinal.

Para o primeiro dos três, talvez eu deva render-me ao termo do Alan Hoffman — quickway —, mas isso soa-me a palavra de marketing. Embora a gíria do marketing seja inevitável quando se lida com o público, eu gosto de pensar que podemos ser um pouco mais precisos aqui, na qualidade de pessoas que se preocupam com transporte colectivo e o debatem. Então, vou continuar usando o termo «corredor bus».

Para o segundo, eu às vezes digo «BRT de superfície» ou «BRT de nível», ou eu geralmente esclareço que se trata de BRT em via exclusiva, com passagens de nível, quando é isso que quero dizer.

Para o terceiro, bem, como eu discuti aqui [5], o «rápido» em trânsito misto pode ser um produto extremamente útil e importante. É um autocarro, o seu espaçamento entre paragens é rápido pela definição desta coluna e é transporte colectivo, pelo que eu não posso realmente negar o nome de «serviços de autocarros rápidos.» Mas eu respeito as opiniões daqueles que argumentam que os autocarros em trânsito misto são tão limitados que chamar-lhes BRT é exagerar e perpetrar uma espécie de fraude. A MTA do condado de Los Angeles, que opera uma das redes mais extensas do mundo deste produto, o Metro Rapid, tem o cuidado de não o marcar de forma a criar confusão com produtos em via exclusiva. O sector, por vezes, utiliza variantes do termo «autocarro rápido», embora isso seja demasiado parecido com «serviço de autocarros rápidos» para nos levar onde quer que seja.

O que posso fazer é referenciar o Metro Rapid directamente. Eu costumo dizer algo como «serviço de autocarros rápidos em via mista, como o Metro Rapid de Los Angeles». Mas, embora o Metro Rapid seja um autocarro, e rápido, e transporte colectivo, eu normalmente não uso o termo BRT, quando falo sobre ele. O melhor termo ainda está para ser inventado, creio.

Em suma, eu respeito o facto de que o termo BRT tem algum conteúdo traumático, especialmente para os norte-americanos. Estou aberto a novas palavras, se elas nos ajudarem a ter uma conversa mais clara. Venham os comentários.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

Advertisements