Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original da Isabel Moreira, publicado no jornal «Expresso» [1].

Cavaco Silva acabou bem o seu mandato presidencial, porque confirmou, até ao último dia, ter sido o pior presidente da nossa república democrática, representando acima de tudo o interesse do seu partido e jamais o interesse do País e fazendo até questionar a utilidade da função presidencial.

O presidente da república não governa, porque tem funções políticas fundamentais: garantir o regular funcionamento das instituições democráticas, promover equilíbrios institucionais, ler a realidade social, garantir a Constituição sem tréguas e defender a pátria, perante o exterior.

Cavaco foi o não-presidente. Vamos esquecer a inventona de Belém, o voluntarismo para fazer cair o governo do PS e para eleger o governo do seu partido. Vamos centrar-nos nos (felizmente) últimos tempos de Cavaquismo:

1 — Cavaco apadrinhou todas as humilhações a que fomos sujeitos, nunca proferindo uma palavra quando entidades externas ofenderam a dignidade dos portugueses.

2 — Cavaco foi activamente cúmplice de um Governo que cortou sem reformar, criou pobreza extrema, destruiu a classe média, flexibilizou selvaticamente a legislação laboral, castigou todas as prestações sociais e almejou privatizar pilares do Estado social como o SNS e a Segurança Social.

3 — Cavaco nunca enviou um orçamento de Estado para fiscalização preventiva, apesar da sua provada inconstitucionalidade, porque a defesa da constitucionalidade nunca prevaleceu sobre oportunismos e falsos argumentos.

4 — Cavaco esmagou a vontade popular, antes e depois das eleições, indicando coligações pré- ou pós-eleitorais.

5 — Cavaco faltou às comemorações do 5 de Outubro, dia da implantação da República que ele representa.

6 — Cavaco não respeitou a igualdade da expressão popular, não ouviu os partidos políticos e chamou o chefe do seu partido, vencedor minoritário das eleições, impondo à oposição o ónus de formar um consenso.

7 — Cavaco queria uma revisão constitucional que alterasse os seus próprios poderes, num atropelo imoral do espaço reservado pela Constituição aos deputados, que têm o poder exclusivo da iniciativa e da aprovação duma lei de revisão constitucional.

Por vezes, Cavaco, ao longo dos seus mandatos, mostrou-se ofendido com algumas opiniões a seu respeito. Porém, a legitimidade para clamar pela ofensa é nossa, porque cada dia de Cavaco em Belém foi um insulto à função e, por isso, ao povo e ao País.

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