Por Gustavo Martins-Coelho


O frango atravessou a estrada. Porquê? Não sabemos.

Não sabemos, sequer, se o frango atravessou mesmo a estrada. Um cristão diria que isso é um mistério de Deus. Um agnóstico juraria que é impossível saber se o frango realmente atravessou a estrada. A incerteza há de pairar eternamente sobre esta questão. Os cépticos questionam:

— Dizem que ele atravessou, mas será que atravessou mesmo? Temos de investigar tal questão detalhadamente, antes de fazer qualquer declaração a seu respeito.

Os ateus juram que o frango não atravessou a estrada, porque ele não existe. Isso é uma crendice estúpida.

Chamou-se a polícia científica. No seu relatório, os técnicos declararam que os indícios recolhidos no local da travessia indicam fortemente que o frango de facto atravessou a estrada.

Sabemos, então, que o frango atravessou a estrada, mas não sabemos a razão por que o fez. Não sabemos, sequer, se terá havido uma razão. Um determinista diria, sem hesitar, que o frango não teve escolha. Aliás, nunca terá escolha, o livre-arbítrio não existe.

Para uma criança, a resposta seria igualmente simples: porque sim. Para um professor da escola primária, não seria muito mais difícil: porque queria chegar ao outro lado. O povo, na sua sabedoria, diria que o frango atravessou a estrada porque o lado de lá é sempre melhor.

Admitamos que sim; que nada acontece por acaso.

Esta questão — por que o frango atravessou a estrada — tem ocupado a humanidade, desde a noite dos tempos. Já os filósofos antigos dela se ocuparam. Platão, por exemplo, afirmou que o frango atravessou a estrada porque buscava alcançar o bem. Segundo Aristóteles, é da natureza dos frangos atravessar a estrada. Sócrates — o filósofo, não o político — disse, sobre o tema:

— Só sei que não sei.

Já Parménides garantiu que não, que o frango não atravessou a estrada, porque não podia mover-se. Segundo este filósofo, também ele grego, o movimento não existe. Hipócrates, pai da medicina, encontrou uma razão… médica: o frango atravessou a estrada, devido a um excesso de humores no pâncreas. Em geral, os filósofos estóicos observaram que o frango atravessou a estrada porque esse é um acontecimento necessário. É o destino. Já estava previsto pela ordem universal do cosmos. Os epicuristas, pelo contrário, afirmam que é prazenteiro para o frango atravessar estradas.

Segundo os filósofos medievais, para responder a tal questão, devemos primeiro deliberar se a expressão «frango» é puro termo esvaziado de sentido, ou a palavra que expressa a ideia genérica e universal de frango, ou ainda se se trata de um frango concreto em particular. Um pouco mais tarde, Maquiavel questionou a quem importa o porquê. Estabelecido o fim de atravessar a estrada, é irrelevante discutir os meios que utilizou para isso.

Filósofos mais recentes também procuraram uma resposta. Kant sugeriu que o frango seguiu apenas o imperativo categórico próprio dos frangos. É uma questão de razão prática. Para Sartre, trata-se de mera fatalidade. A existência do frango está na sua liberdade de atravessar a estrada. Segundo Marx, o actual estádio das forças produtivas exigia uma nova classe social de frangos, capazes de atravessar a estrada. Os filósofos da escola de Frankfurt seguiram os ensinamentos marxistas e concluíram que esta é uma questão medíocre, imposta pelos mentores de uma arte de massas que transformou a imagem dum frango em mais um produto da indústria cultural. Nietzsche defendeu que ele deseja superar a sua condição de frango, para se tornar um superfrango. Schopenhauer garantiu que, no acto de atravessar, o frango foge de si mesmo, numa tentativa de aliviar o tédio e o sofrimento que é estar vivo neste mundo sem sentido.

Hodiernamente, as feministas acusaram o frango de ter atravessado a estrada para humilhar a franga, num gesto exibicionista, tipicamente machista, tentando, além disso, convencê-la de que, enquanto franga, jamais terá a capacidade suficiente de atravessar a estrada sozinha.

Martin Luther King disse, num seu discurso:

— Eu tive um sonho. Vi um mundo no qual todos os frangos serão livres de atravessar a estrada sem que sejam questionados os seus motivos!
A ciência também se mostrou preocupada com o tema. A meio caminho entre esta e a filosofia, Blaise Pascal questionou-se:

— Quem sabe? O coração do frango tem razões que a própria razão desconhece.
No campo da psicanálise, Freud disse, entre duas baforadas de charuto:

— A preocupação com o facto do frango ter atravessado a estrada é um sintoma de insegurança sexual.

Com base nas suas observações de frangos, Newton formulou duas leis:

1) Frangos em repouso tendem a ficar em repouso; frangos em movimento tendem a atravessar a estrada.

2) A atracção gravitacional exercida pelos outros frangos que já estavam do outro lado da estrada leva o frango a atravessar a estrada.

Darwin escreveu um livro, em que postulou a teoria de que, ao longo de grandes períodos de tempo, os frangos têm sido seleccionados naturalmente, de modo que, agora, têm uma predisposição genética para atravessar estradas.

Einstein, um pouco na linha de Parménides, embora não negando que o movimento exista, nega-lhe uma existência absoluta. Para este brilhante cientista, se o frango atravessou a estrada, ou a estrada se moveu debaixo do frango, depende do ponto de vista do observador. Tudo é relativo.

Richard Dawkins foi mais longe do que Darwin: na verdade, são os genes para atravessar a rua que estão de facto a atravessar a rua. O frango é apenas uma forma que os genes encontraram para realizar essa tarefa.

O cientista russo Pavlov fez uma experiência engraçada e chegou à conclusão de que o frango atravessou a estrada, porque, dantes, ele tocava uma campainha e oferecia alimento ao frango do outro lado da rua. Agora, após várias experiências iguais, basta tocar a campainha sem lhe dar alimento, que ele atravessará.

A religião também procurou respostas. Narra o Antigo Testamento que, quando Moisés guiou o povo Hebreu até à terra prometida, uma voz vinda do céu bradou ao frango:

— Atravessa a estrada! — e, então, o frango atravessou a estrada e todos se regozijaram.

No Novo Testamento, Jesus disse aos seus discípulos:

— Em verdade vos digo, tende fé em meu Pai e ele vos mostrará a verdade.

O espiritismo garante que o frango atravessou a estrada porque baixou nele um espírito aventureiro. A Igreja Universal do Reino de Deus, por um donativo de 10 % do salário, promete contar toda a verdade.

Até na literatura houve repercussões. Clarice Lispector escreveu um romance.

A essência do frango está nas suas patas. As patas têm o frango. Quem vê as patas, vê o frango. A essência das patas é o correr, o correr abstracto. A estrada é a essência do correr. Quem vê o correr, vê a estrada.

Aqui, na «Rua da Constituição» [1], acompanhámos o frango dum lado ao outro e sabemos a verdade por trás desse movimento. Convidamos o leitor a descobrir connosco por que o frango atravessou a estrada, nas próximas edições desta nova coluna [2].

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