Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Manuel Loff, publicado no jornal «Público» [1].

O governo da austeridade foi ratificado pelos Portugueses?! Depois da maior perda de votos desde que há democracia em Portugal (mais do que os que perdeu em 2005, depois de Santana, ou em 1995, depois de Cavaco), do terceiro resultado mais baixo em quarenta anos (pouco acima dos resultados de 1975 e 2005) e de ter perdido a maioria absoluta — o que ganhou a direita? Ganhou ao PS, um campeonato que ela própria inventou. Só que Portugal não se reduz aos três partidos — PS, PSD e CDS — e os outros votantes também têm direito a fazer-se ouvir. As oposições ganharam amplamente as eleições. A maioria dos eleitores votaram nas candidaturas da esquerda (o PS, o BE, a CDU e os pequenos partidos), dando-lhes um resultado ao nível dos melhores da História e o inverso das eleições de 2011.

As eleições portuguesas confirmaram, aliás, todas as outras eleições europeias: em nenhuma, a austeridade foi ratificada pelos eleitores. O sistema eleitoral britânico deu uma maioria aos conservadores; a coligação de Merkel perdeu a maioria parlamentar.

O PS não foi sozinho alternativa e António Costa não resolveu o problema. O PS continua com os seus piores resultados desde 1991 (segunda maioria absoluta de Cavaco). Os partidos do «arco da governação» (PS, PSD, CDS) continuam em queda: no seu conjunto, obtêm o resultado mais baixo desde 1985. O problema, portanto, não está nos líderes. Os eleitores também votam em ideias, o que explica que um milhão de portugueses tenham votado no BE ou na CDU, sem sentirem que votavam Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa para primeiro-ministro. Os socialistas deveriam tentar perceber porque é que uma grande parte dos eleitores já não acredita na alternância sem alternativa.

A surpresa destas eleições foi que isto virou mesmo à esquerda! Enganou-se quem desvalorizou o ciclo de maior contestação social dos últimos trinta anos e achou que, uma vez chegadas as eleições, todos votariam nos do costume. É ou não significativo que o BE tenha duplicado a sua representatividade, depois de o terem declarado morto? Que o Livre, com a sua «esquerda de governo» contra a «esquerda de protesto», tenha perdido metade dos poucos votos que obtivera para o Parlamento Europeu? Que a CDU, apesar do voto útil no PS e dos 260 mil novos eleitores do BE, tenha ganho mais apoio (sobretudo no Norte), pela quarta eleição consecutiva? Quem quis mudar a sério confiou o seu voto à esquerda do PS. Um quinto dos eleitores constituem hoje um bloco sociopolítico (plural, como tudo na sociedade) que, apesar da pressão das sondagens a favor do «voto útil», não confia nos socialistas para fazer a mudança. O PS só tem a confiança de três em cada cinco eleitores da esquerda. É por isso que o PS perdeu as eleições — mas a esquerda as ganhou! PS, BE e CDU representam opções políticas diferentes, mas, depois da devastação social e económica como que vivemos desde 2011, os três milhões de portugueses que neles votaram fizeram-no para impedir que este governo voltasse ao poder.

Portanto, é perfeitamente natural — e constitucional — que se tenha produzido uma solução alternativa de governo. Era bom que não se confundisse o sistema político com a Liga de Futebol, porque, desde que há parlamentos e eleições, as candidaturas mais votadas que não reúnem maiorias parlamentares cedem o lugar a quem as reúna! Em Espanha, o PSOE, apesar do que sucedeu no governo central, constitui governo com maiorias de esquerda, com ou sem a participação direta de parceiros, em muitas regiões autónomas e municípios onde o PP foi o partido mais votado, mas onde não não obteve maioria. Willy Brandt só chegou ao poder na RFA, em 1969, constituindo uma coligação contra a CDU/CSU, que ganhara as eleições sem maioria. Os exemplos podiam ser muitos mais… O que o PS escolheu fazer vai ficar na memória de todos.

Revelador do incómodo por que passa a direita portuguesa é o tom patético com que Cavaco, desrespeitando regras básicas da democracia, descreveu as condições para se poder fazer parte do governo de Portugal. O mais impopular dos presidentes, em fim de mandato, parecia Jaime Neves na noite do 25 de Novembro de 1975… A lengalenga da NATO (entretanto desmentida pelo novo presidente dos EUA), da «parceria atlântica» e dos tratados europeus é digna duma democracia musculada, onde há uma oposição tolerável (humildemente sujeita o dogma «austeridade–Pentágono–o-que-o-Dijsselbloem-disser») e outra que nem por isso… Mas ele não está sozinho nesta alucinação. Há até socialistas que agiram e agem da forma menos digna de todas, da mais pura táctica política, mostrando-se horrorizados com a possibilidade dum acordo à esquerda, após terem denunciado durante anos uma «esquerda do bota-abaixo», que não contribui para a «governabilidade». Agora, PCP e BE mostraram abertura para viabilizar um governo do PS, para impedir o regresso da direita, não fazendo mais do que aquilo que disseram toda a campanha: que os seus votos serviriam para procurar uma solução contra a austeridade.

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal e de que, afinal, a esquerda foi eficaz em convocar o 25 de Abril contra a austeridade.

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