Por Gustavo Martins-Coelho


Estive recentemente num jantar, onde uma grávida falava com paixão dum curso de preparação para o parto, que andava a frequentar. Nesse curso, teria a senhora em questão aprendido imensas coisas sobre a forma como os médicos obstetras retiram poder à mulher no momento do parto. Confesso que, quando me falam do poder da mulher, ou do poder do homem, ou do poder disto e daquilo, fico logo de pé atrás: soa-me a esoterismo e eu, um homem de ciência, sou tudo, menos esotérico.

De facto, no tal curso, aparentemente, ensinam às mulheres o valor da palavra «não». Eu gosto muito da palavra «não», na verdade. Como escrevi aqui na «Rua…», há já uns anos, «gostava de ouvir mais vezes ‘não’ e menos vezes o dúbio ‘sim’ de quem já sabe que é ‘não’, mas não tem coragem de dizer» [1]. Mas dizer «não» só para marcar uma posição é absolutamente disparatado.

Esta história do «não» e do curso a que aludi levar-nos-ia a um debate sobre a autonomia do doente, o qual é capaz de valer a pena, mas não hoje, pois o que cá me traz, na sequência desse jantar, é a episiotomia. Um dos «nãos» mais veementes que esse curso ensinava as mulheres a dizer era à episiotomia; porque é uma agressão injustificada ao corpo da mulher…

Na verdade, se formos a ver, grande parte das intervenções médicas e cirúrgicas que temos para oferecer aos nossos doentes são agressões aos seus corpos, pelo que, se formos a considerar esse argumento ao pé da letra, mais nos vale encerrar todos os hospitais. A grande questão é uma de ponderação entre vantagens e desvantagens, isto é: sabendo que a intervenção que temos a propor é uma agressão, é melhor deixar ficar como está, ou fazer essa agressão? Muitas vezes, a balança pende para o segundo lado e a episiotomia é uma delas.

Mas vamos lá ver: já disse um par de vezes esta palavra — episiotomia — e ainda não expliquei de que se trata. A episiotomia é um corte cirúrgico do períneo (que é, grosso modo, o espaço entre as pernas), realizado pelo obstetra, com o objectivo de aumentar o espaço vaginal [2] e assim facilitar a saída do bebé, no momento do parto [3]. Serve, particularmente, para prevenir a lesão do corpo perineal, visto que esta estrutura, situada entre a vagina e o ânus, ajuda a manter a continência fecal e urinária.

Como acontece com a maioria dos procedimentos médicos, também a episiotomia passou por uma fase de extrema popularidade, em que era aplicada a um pouco mais de metade das mulheres, durante o parto, particularmente se se tratasse do primeiro parto, após o que o seu papel enquanto panaceia começou a ser progressivamente questionado e, por consequência, o seu uso começou a ser mais restrito: os dados mais recentes de que dispomos indicam que apenas um terço das mulheres sofre uma episiotomia durante o parto e é provável que este número continue a reduzir-se.

Como em tudo, é preciso bom senso e é preciso saber pesar os prós e os contras. Cortar, cirurgicamente, tecidos humanos traz consequências. No caso da episiotomia, aumenta a dor e, por conseguinte, o consumo de analgésicos; pode provocar lacerações mais profundas; e, a longo prazo, causa dor na relação sexual [4]. Ou seja, apenas quando os benefícios superam essas desvantagens é que se justifica a realização duma episiotomia. E quando é que a relação custo/benefício é positiva? Segundo o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas [5], a episiotomia está recomendada para facilitar partos difíceis, nomeadamente quando os ombros do bebé encravam no canal do parto; para acelerar o parto, quando o estado de saúde do bebé parece comprometido; e quando a tensão nos tecidos que rodeiam a vagina faz temer uma possível laceração grave.

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