Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do João Mendes, publicado no blogue «Aventar» [1].

Urge relembrar como começou a campanha radical e extremista da Direita, que visa somente concentrar (ainda mais) os escassos recursos da nação nas mãos duma ínfima minoria, alargando cada vez mais o fosso entre os ricos e os pobres e esmagando a classe média, através da venda ao desbarato do património colectivo, da degradação das condições laborais, da deterioração da escola pública e do SNS, do apoio ao sector privado da educação e da saúde, do incentivo à emigração em massa de jovens altamente qualificados, de quem o país precisa desesperadamente, para se modernizar.

Relembremos a propaganda:

  1. Os partidos à esquerda traíram o seu eleitorado, porque os eleitores não votaram PS, CDU ou BE na expectativa de que se coligassem. Às tantas, votaram neles, na esperança de que se coligassem com a PAF? Durante a campanha, nenhum destes partidos fechou a porta a entendimentos. Já agora, será que os eleitores votaram no PSD e no CDS-PP em 2002 e 2011, na esperança de que eles se coligassem? Isto também conta como traição?
  2. Uma coligação de esquerda põe em causa os tratados internacionais e a permanência de Portugal na UE e no euro. Nada disso, como se vê. O PS avisou logo que não cederia em questões europeias.
  3. Os partidos à esquerda do PS traíram a sua ideologia e princípios ao negociar com o PS. É ser preso por ter cão e preso por não ter. Quando estes partidos fechavam a porta a entendimentos, eram irresponsáveis. Agora que se entendem, são irresponsáveis. Pela vontade da PAF, CDU e BE desapareciam e não chateavam mais, juntamente com a Constituição e o voto do Portugueses. Já que falamos de trair ideologias, o que foi feito com a social-democracia do PSD e com os contribuintes, os idosos e o eurocepticismo do CDS/PP? Pois.
  4. PS, CDU e BE não podem governar porque os seus programas não são conciliáveis. E o programa do PS era conciliável com o do PSD e do CDS/PP? Passos Coelho dixit: «o programa económico é divergente, o modelo económico é diferente, a forma como o Partido Socialista […] vem colocando o problema político e económico […] não é conciliável com os objectivos que temos, quer com as regras europeias, quer com o que tem sido o esforço de modernização e de reforma estrutural da sociedade portuguesa» [2].
  5. A coligação PSD–CDS/PP deve governar porque ganhou as eleições. Então e a estabilidade? Se existe uma solução governativa apoiada pela maioria do Parlamento, não contará essa solução com o apoio da maioria dos portugueses tal como, por exemplo, a coligação pós-eleitoral entre PSD e CDS/PP em 2011 — quando o Paulo Portas, com o consentimento tácito do Passos Coelho, defendia que não importava quem tinha mais votos, mas quem conseguia apresentar uma maioria [3]? Na Europa, vários Estados têm governos que não são liderados (nem integrados) pela força partidária mais votada nas últimas eleições [4].
  6. As dissidências no PS demonstram que a solução à esquerda fractura o partido e é inviável. De repente, o Seguro e o Assis deixaram de ser, aos olhos da Direita, irresponsáveis e tóxicos. Mas, mais importante, o António Costa teve um mandato da Comissão Política do PS para as negociações que levou a cabo. Mais legitimidade não é possível.
  7. Os mercados estão a castigar a nossa economia pela deriva esquerdista. São factos alternativos [5]. Os mercados não se assustam com governos de esquerda liderados pelo PS, nem com nada; limitam-se a extorquir quem querem, quando lhes interessa.
  8. O António Costa é movido por uma ambição desmedida. Até pode ser. O Passos Coelho é movido por patriotismo? Foi o patriotismo que o levou a derreter fundos comunitários no esquema da Tecnoforma, ou a detonar a Manuela Ferreira Leite, o Aguiar-Branco e o Paulo Rangel com esquemas desonestos [6], ou a mentir para ser eleito em 2011 [7]? E o Paulo Portas, terá sido por patriotismo que se demitiu irrevogavelmente, causando danos significativos na economia portuguesa [8], para depois recuar, quando foi promovido a vice-primeiro-ministro?
  9. O António Costa procura sobreviver politicamente. Vamos assumir que é verdade. Não seria mais fácil sobreviver politicamente, coligando-se com a PAF e usando a desculpa do sacrifício em nome da estabilidade, para deixar cair o governo no momento certo, como o PSD fez ao PS, em 2011? E o que está a fazer a PAF, depois de ter dito cobras e lagartos do PS, ao convidar o PS para uma coligação, se não procurar sobreviver?
  10. Governo de esquerda configura um golpe de Estado e instaurará uma ditadura de esquerda. Não vale a pena tentar desmontar esta imbecilidade: é tão estúpida, que requer um grau de idiotez astronómico para a engolir e demonstra que há muita gente que não sabe o que é um golpe de Estado ou uma ditadura de esquerda. Já para não mencionar que os nossos principais parceiros económicos da actualidade são o Partido Comunista Chinês (quer pela via estatal, quer pelo investimento dos seus oligarcas), a ditadura de esquerda que governa opressivamente Angola.

Estes foram os argumentos iniciais, para não deixar a Esquerda governar. Depois destes, vieram mais. E o Governo aguenta-se. A propaganda não descansa.

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