Por Gustavo Martins-Coelho

Vou contar uma história de Natal. O Natal é quando um homem quiser. Eu sou homem e eu quero que seja hoje.

Quando eu era miúdo, a minha paróquia tinha um ATL em Francos. Ainda não havia metro do Porto, pelo que Francos era Francos, não Frangos [1].

Lembro-me de ir à exposição do projecto do metro do Porto, antes do seu lançamento, e de ficar desapontado, por só ter uma linha: da Senhora da Hora a Campanhã (ainda não se falava no Estádio do Dragão), só há uma linha. Mesmo que lhe chamem A, B, Bx, C, E e F, continua a ser uma só. E eu ainda não sabia que a senhora do altifalante iria chamar Frangos a Francos, onde ficava o ATL da minha paróquia.

Todos os Natais, juntávamo-nos todos — os da paróquia e os do ATL — e eu era uma peça decorativa do presépio. Acabou a história.

Mas não acabou o presépio; esse há todos os anos. Aliás, se a vida fosse um presépio, eu seria o burro. Por mais que me esforce, não deixo de sê-lo.

Nunca compreendi o que o José e a Maria ficaram a fazer no estábulo, desde que o menino nasceu até que os Reis Magos chegaram, para o adorar: é que, de vinte e cinco de Dezembro a seis de Janeiro, passaram doze dias! Doze dias num estábulo, com o infante metido na mangedoura, a fazer o quê? À espera de quê? Eles não sabiam que haveriam de chegar os reis magos. E, mesmo que soubessem — se alguém me fizesse esperar doze dias… Bem, ninguém me faria esperar doze dias, porque eu me iria embora ao fim de meia hora.

A vaca e o burro não comeram, durante esses doze dias? Ou a Maria tirava o bebé da mangedoura, de cada vez que um dos bichos queria ruminar uma bucha?

O que andou o José a fazer, durante esse tempo todo? Doze dias para se recensear!? A fila para o guichê, na repartição, era assim tão comprida? Não podia ter tirado uma senha e voltava lá depois? É que, de Nazaré a Belém, são pouco mais de três horas de viagem, a pé. Não era, propriamente, preciso ficar lá doze dias…

E a maior questão de todas: não vagou um único quarto, em todas as estalagens da cidade de Belém, durante quase duas semanas, para onde o José e a Maria pudessem transferir-se? Quantas estalagens haveria, naquele tempo, em Belém? Hoje em dia, há três [2].

A prova de que o Natal é quando um homem quiser é o Norteshopping continuar cheio em Janeiro, mesmo depois de esgotados os subsídios de Natal. Há crise!? Onde?

Comprar presentes é das coisas mais difíceis do mundo. É um risco permanente, uma excelente oportunidade de mostrarmos inequivocamente o mal que conhecemos a pessoa a quem damos a prenda. Na dúvida, compramos After Eight, que cai sempre bem. Oferecemos uma caixa de After Eight, sem nos darmos ao trabalho de escrever um bilhete, porque o próprio chocolate grita que «não te conheço minimamente, apesar de estar aqui a conviver contigo, no Natal; não suspeito, sequer, de que não gostas de menta; mas és demasiado irrelevante na minha vida, para que eu me dê ao trabalho de descobrir a ti e aos teus gostos e de pensar num presente ligeiramente menos impessoal», e obrigamos o receptor (o receptáculo, na verdade — uma coisa passiva, cuja existência pouco nos importa) a fingir que gosta de chocolate de menta, até descobrir a quem vai empandeirar com o nosso embrulho. Está o assunto resolvido — e celebrado o Natal.

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