Por Hélder Oliveira Coelho


A arte sacra serviu e serve para catequizar, mas acima de tudo para sublimar os conceitos superiores de belo, de amor e de tolerância.

É certo que sempre haverá quem diga que, para lá do objectivo inerente à catequização, haverá a necessidade de ostentação, a demonstração de poder da Igreja universal. Eu creio que é inegável que também essas funções encontram fundamento na História da humanidade e da Igreja.

Não obstante, é inegável que a Igreja mudou. O tempo da ostentação passou. A figura papal é o maior exemplo disto que digo. Um Padre por todos e para todos. Um Padre que não se senta na cátedra para emanar sabedoria, mas que caminha junto do seu rebanho para a partilhar. A partilha que é um epíteto com bivalência. Por definição, não há uma corrente de sentido único na partilha. Há uma construção de riqueza, esteja ela onde estiver.

A imagem dum clero de pedestal já não existe. A paróquia com um pastor endeusado, semideus de certezas e virtudes, que julga e condena, já não existe. Não é tempo da ostentação ou da falsa humildade. Acabou a era da denúncia e da cisão entre os justos e os pecadores. Os que praticam e os que se perderam na teia do pecado. Terminou a era da hipocrisia, da perseguição por parte de mal-amados, da falsa moral, da ética de rosário de pau oco.

Os bispos já não são intelectuais distantes, homens de cenário, tão falsos como falsas são as intenções com que papagueiam a misericórdia. Não existem mais padres vaidosos, que acenam com a caridade do medo e da contrapartida.

Os que negoceiam a salvação das almas como valores da bolsa. Que compram e vendem a santidade mediante a pureza da conta bancária.

Terminaram os anos da treva da escravidão do sexo. O tempo em que o prazer dos outros era a chama da inveja da falsa vocação. Terminou o penhor da castração do amor, com que se escravizavam no fogo do Inferno os que não cumpriam a gama doente da sua emanada sabedoria.

Acabaram as exaltações ao estilo do império romano, que bebe na ignorância e no medo. Acabaram as perseguições e a aclamação da ostentação.

Se Francisco soubesse como já não existe esta Igreja falsa, estaria bem mais tranquilo em Roma.

Os bispos ordinários são homens de bem. Papagueiam o discurso oficial do Pastor de Roma, como se deve dizer ámen ao chefe de ontem, ao de hoje e ao que há-de vir. Com a mesma verdade e vontade com que se queima o círio e dele se consegue a luz ténue e trémula e um fumo fraco. Em igrejas cheias de jovens e de gente de fé. Onde Deus é o centro e a beatice de sacristia não mais rege o preconceito da oração. A Confirmação é o nascimento duma comunidade activa e vigorosa na defesa do amor, na presença assídua na eucaristia. O Crisma não é mais a vacina que constrói os anticorpos contra a Fé num Deus castrador, que habita numa casa de homens santos. Os bispos ordinários são agora homens da terra, que constroem a sua mensagem evangelizadora em actos e obras, mais do que nas palavras ocas do palco da celebração. Os padres caminham junto do seu povo, confortam o seu sofrimento e aliviam a angústia que a ansiedade dos tempos traz.

Homens que arregaçam mangas e carregam as dores do seu rebanho — a par — como se suas também fossem, e com a luz do amor, da paz e da tolerância de Cristo encontram a solução.

A misericórdia não está mais em faixas, mas antes na acção diária dos Homens. Não mais se construíram albergues para mães solteiras adolescentes, perdidas, mas cuidadas pela caridade da Igreja, que negou educá-las porque o sexo é pecado, até sob a forma falada. Não haverá mais cardeais a bendizer a miséria que faz dos pobres humildes.

Não mais a arte sacra representará coroas episcopais sobre cabeças que ardem no fogo do Inferno.

A redenção abre portas para uma fé intensa e pura, a começar na cátedra de Pedro e que já chegou a todas as catedrais.

Terminamos com um dos mais geniais exemplares da arte sacra, sob a forma de música. Extraído do Requiem de Mozart, obra máxima do período clássico, deixo-vos com o Cordeiro de Deus, Agnus Dei. Na esperança que Deus, Alá, Iavé, O Verbo, A Energia, O Nada, chame-se Ele como chamar, mas tenha Misericórdia de todos nós.

Anúncios