Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Filipe Alves, publicado no jornal «Económico».


Certa vez, um banqueiro afirmou que, se recebesse o salário mínimo, também ele seria um «esquerdista». A brincar se dizem as verdades e o banqueiro tinha razão: a justiça social é a melhor forma de combater o extremismo.

Um sétimo dos trabalhadores portugueses (ou seja, 465.000 pessoas) recebe o ordenado mínimo; três vezes mais do que antes da crise. Cada caso é um caso, decerto. Mas é também verdade que uma empresa que paga o salário mínimo à maioria dos seus funcionários depende de mão-de-obra barata para sobreviver e, portanto, não terá grande futuro: ou não produz riqueza suficiente para remunerar condignamente os trabalhadores e, portanto, está a consumir recursos que poderiam ser utilizados em empreendimentos mais rendíveis e competitivos; ou paga aos seus funcionários um valor inferior ao que deveriam receber numa sociedade em que o trabalho é a forma legítima de ganhar sustento, sair da pobreza e ascender socialmente. Empresas destas, que não querem mudar de paradigma, estão condenadas à extinção.

É certo que a subida do salário mínimo faz aumentar o desemprego, já que as empresas despedem mais e contratam menos, pelo que o seu aumento pode prejudicar mais os pobres do que ajudá-los. Além disso, a subida do salário mínimo tem impacto negativo na competitividade do país a nível de exportações e de investimento estrangeiro.

Mas, apesar dos contras, também existem benefícios para a economia, com a subida dos salários mais baixos. Quando as famílias de menores rendimentos têm mais dinheiro, consomem mais bens não-duradouros, estimulando os pequenos negócios em áreas como o comércio e a restauração, sem que ocorra um aumento significativo da compra de bens duradouros, como os automóveis, que contribuem negativamente para a balança comercial. Outros benefícios são a automatização da indústria; uma ética de trabalho mais rigorosa (os patrões são mais exigentes com quem ganha mais); contribuições mais elevadas para a Segurança Social; e mais disponibilidade para o trabalhador apostar na sua educação e na dos seus filhos, melhorando as suas perspectivas de mobilidade social.

Mas o melhor argumento pela subida dos salários mais baixos é uma questão de princípios. Não é aceitável que, em Portugal, uma pessoa trabalhe quarenta horas semanais e, ainda que pouco qualificada, não receba um salário que lhe permita um nível de vida minimamente digno.

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