Por Satoshi Kanazawa
Traduzido do original [1] por Sofia Silva


Alguém me perguntou certa vez, mesmo antes de nos despedirmos na última vez que a vi, quem era o meu herói. Tive de pensar bastante, antes de responder. Não queria dar uma resposta óbvia, como «Darwin», «Newton» ou «Batman». Eu já tinha expressado a minha admiração por Leda Cosmides, Simon Baron-Cohen e Robert L. Trivers, pelo seu trabalho científico, mas não tinha a certeza se eles eram suficientemente conhecidos pelo público, para serem considerados os meus «heróis». Puxei pela cabeça, enquanto atravessávamos uma ponte pedonal sobre o Tamisa; e a resposta que finalmente me surgiu, quando concluímos a travessia, foi «Jim Watson».

Eu li duas autobiografias anteriores do prémio Nobel James D. Watson («A dupla hélice» e «Genes, girls, and gamow» [Genes, Miúdas e Gamow]). Desde que li «A dupla hélice», há mais duma década, que sou um grande fã do Jim Watson. Gosto dele e admiro-o, em parte, porque ele aparenta ser um dos raros cientistas que estão perfeitamente conscientes de que os cientistas são levados a produzir trabalho científico criativo a fim de impressionarem as mulheres (embora este facto evolutivo permaneça oculto da maioria das pessoas, incluindo os cientistas).

Fiquei, portanto, muito entusiasmado, quando soube que o Watson tinha escrito uma terceira autobiografia. Antes de a ler, contudo, fiquei intrigado com o título: «Avoid boring people». O título pode significar duas coisas completamente diferentes:

  1. Não aborrecer outras pessoas;
  2. Não se aproximar de pessoas aborrecidas.

Eu não fui capaz de perceber, pela descrição do livro, qual delas o Watson pretendia significar com o título, ou se pretendia dizer ambas. Só descobri quando realmente li o livro.

O mais incrível, ao ler «Avoid boring people», é que o próprio Watson parece não se aperceber de todo do potencial duplo significado do título. Contudo, a natureza confusa do título é muito óbvia no livro. Ele queria efectivamente referir-se ao segundo significado (não nos aproximarmos de pessoas aborrecidas, como por exemplo, não ir a jantares em casa de colegas de trabalho, a não ser que saibamos de antemão que vai haver lá uma miúda gira), enquanto Hannah H. Gray, antiga presidente da Universidade de Chicago, que escreveu o prefácio do livro, interpretou o título segundo o primeiro significado. Aparentemente, ela não leu o livro (nem sequer na diagonal) antes de escrever o prefácio!

Fora isso, o livro oferece uma leitura agradável, mesmo para alguém (como eu) que leu as suas autobiografias anteriores (várias vezes), dado que contém novas peripécias, histórias e fotografias (tanto de pessoas como de documentos), que ele não partilhou connosco antes. Ao contrário das anteriores, que cobrem períodos muito específicos da sua vida, «Avoid boring people» retrata a sua vida toda (pelo menos até agora), desde antes do seu nascimento (começando pela sua árvore genealógica, desde a Boston do século XVII) até ao presente (a demissão do Larry Summers do cargo de reitor de Harvard). Por consequência, ele não descreve nenhuma parte da sua vida com tanto detalhe como fez nas autobiografias anteriores.

O livro consiste em duas partes alternadas. Primeiro ele conta histórias duma fase particular da sua vida (os anos da licenciatura em Chicago, o doutoramento em Indiana, os anos passados em Cambridge em pós-doutoramento, os anos como professor assistente convidado em Harvard, etc.). Depois passa pelas «lições de moral» de cada época em particular, antes de passar para a fase seguinte. As «lições de moral» parecem estar completamente desligadas das histórias, excepto, provavelmente, na própria memória do Watson, mas são boas — muito boas. Elas estão direccionadas para académicos em vários pontos das suas carreiras. Eu gostava que alguém me tivesse dado essas lições quando era mais novo. Acredito que todos os académicos beneficiariam destas lições, ainda que algumas delas sejam especificamente para cientistas naturais/biólogos e outras ainda para vencedores do Prémio Nobel.

Eu recomendo «Avoid boring people» a todos os colegas cientistas e aficionados por autobiografias científicas (eu sou ambos). Mesmo aqueles que não têm qualquer interesse pelo James Watson ou pela sua vida beneficiarão das suas lições. Todas elas são excelentes; e vou deixar aos leitores a descoberta do seu grande valor. Contudo, aqui fica uma lição, não dada ou «moralizada» pelo próprio Watson, que os jovens académicos em qualquer área acharão esclarecedora e talvez reconfortante. Enquanto auto-proclamado fã do Watson, sinto-me envergonhado por admitir que não sabia deste evento da sua vida até agora:

James D. Watson, co-descobridor da estrutura do ADN, futuro vencedor do Prémio Nobel e um dos maiores cientistas do século XX, foi inicialmente recusado como professor pelos seus colegas do Departamento de Biologia da Universidade de Harvard.

P.S.: Afinal, Watson é muito mais inteligente do que eu (como seria de esperar) e eu estava completamente enganado. Ele realmente pretendia dar os dois significados ao título. Primeiro, no Capítulo 5, ele dá a lição de não se aproximar de pessoas aborrecidas. Mas no último capítulo (Capítulo 15), repete a mesma lição, significando não aborrecer outras pessoas. Portanto, ele estava consciente do duplo significado. Esta foi a última vez que tentei corrigir o vencedor dum Prémio Nobel. Aqui está a minha lição de moral: evitar escrever uma resenha crítica a um livro antes de o ler até ao fim.

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