Nota do editor: este artigo é um resumo do texto original do Seumas Milne, publicado no jornal «The Guardian» [1].


A guerra contra o terror, lançada pelo não saudoso George W. Bush, ganha proporções cada vez mais grotescas. Já chegámos ao ponto em que os tribunais britânicos julgam criminosos terroristas que foram armados e treinados pelos serviços secretos — britânicos [2] — com armas roubadas do arsenal líbio, após a queda do regime de Kadafi [3]! Ou que condenam um taxista londrino a prisão perpétua, por ter fabricado bombas para a resistência à invasão norte-americana e britânica do Iraque, em 2007 [4], quando nenhuma definição de terrorismo inclui a oposição armada a uma invasão e ocupação ilegal dum território… Chegámos ao ponto, então, em que o terrorismo está nos olhos de quem o vê. No Médio Oriente, os terroristas de hoje são os defensores da liberdade de amanhã, ao sabor das alianças que se vão forjando.

O mais recente inimigo é o Estado Islâmico, que chegou a dominar um território considerável, entre o Iraque e a Síria. Mas esse inimigo, segundo um relatório secreto de 2012 [5], era já antevisto como a principal força rebelde na Síria e contava com o apoio dos países ocidentais, dos estados do Golfo Pérsico e da Turquia, que sabiam tratar-se duma força sectária, que tinha por objectivo impor um estado salafista, mas servia, na altura, o objectivo de enfraquecer o regime sírio [6].

Isto não significa que os EUA criaram o Estado Islâmico. Mas é certo que não existia Al-Qaeda no Iraque (que veio a dar origem ao Estado Islâmico) antes da invasão de 2007; e é também certo que os EUA exploraram o Estado Islâmico, como ferramenta de manutenção do controlo ocidental na região. A estratégia mudou, quando o Estado Islâmico começou a decapitar cidadãos ocidentais e os aliados do Golfo passaram a apoiar outros grupos. Mas ficou claro que os EUA não perderam o hábito de apoiar grupos extremistas, que depois se viram contra eles, como já tinha acontecido com a ascensão da Al-Qaeda, após o apoio na guerra do Afeganistão, contra a União Soviética, nos anos oitenta do século XX.

A política ocidental para o Médio Oriente continua a seguir o modelo imperialista de dividir para reinar: as forças norte-americanas bombardeiam um grupo rebelde e apoiam outro na Síria; desenvolvem operações militares conjuntas com o Irão contra o Estado Islâmico no Iraque, enquanto apoiam a campanha militar saudita contra as forças apoiadas pelo Irão no Iémen. Estas intervenções apenas trazem destruição e divisão e não resolvem o problema do Estado Islâmico — ou dos grupos que lhe sucederem. A solução para os problemas da região têm de ser resolvidos pelos seus povos, não pelos interesses externos.

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