Por Gustavo Martins-Coelho

Ontem, almocei no Burger King. Vergonha! Um médico de Saúde Pública a comer fast food! Antes de que me acusem de ser como Frei Tomás, que prega, prega, mas é melhor olhar para o que ele diz e não para o que ele faz, vamos pôr os pontos nos is: a fast food chama-se assim — comida rápida — por um motivo: é um serviço de restauração destinado a situações em que estamos com pressa e em que temos de sacrificar o tempo dedicado à refeição. Não é o ideal, nem deve tornar-se rotineiro, mas, ocasionalmente, todos nós temos situações dessas e, em tais alturas, a comida rápida cumpre a função a que se destina: fornece uma refeição rápida e altamente calórica, para nos manter com energia. Além do mais, fazer uma alimentação saudável, variada e equilibrada, não significa proscrever determinados tipos alimentares, seja a comida rápida, seja outro qualquer. Com conta peso e medida, pode-se comer de tudo, incluindo comida rápida e todos aqueles pequenos prazeres gulosos, que tanto mal fazem!

Mas não foi para fazer a apologia da comida rápida que resolvi falar do meu almoço de ontem. O motivo é outro. O Burger King tem agora uma regra — ou talvez lhe possamos chamar promoção, não sei… O que é certo é que as bebidas, no Burger King, são à descrição. Perguntam-nos o que queremos beber e, independentemente da resposta, dão-nos um copo vazio, com a instrução de que é suposto nós mesmos o enchermos, no dispensador de bebidas; e que podemos voltar a enchê-lo as vezes que quisermos, no prazo de meia hora a contar a partir daí. Ainda não vi tal promoção em mais nenhum restaurante concorrente directo do Burger King, mas não duvido de que tal venha a acontecer brevemente.

Dizia eu que, independentemente da resposta, nos dão um copo vazio? Errado! Só se a resposta for um refrigerante: se pedirmos água, dão-nos uma garrafa de água e não podemos voltar lá para pedir a segunda, gratuitamente.

Este é um caso prático daquilo que discuti, na teoria, há pouco mais dum mês [1], quando falei da saúde em todas as políticas. Claro que, neste caso, não se trata duma questão política strictu sensu, visto que o Burger King é uma cadeia de restaurantes privada, que pode comercializar os seus produtos de forma que bem entender. Mas o que importa aqui perceber é que a escolha racional, do ponto de vista económico, a escolha que se coloca ao consumidor é, pelo mesmo preço, obter uma quantidade potencialmente ilimitada dum bem (o refrigerante) — potencialmente ilimitada, porque se limita, na prática, à quantidade que conseguir beber durante meia hora — ou obter uma quantidade limitada (bastante limitada, diga-se de passagem) doutro bem (água). A escolha racional, naturalmente, é o refrigerante. Mesmo que se incorporem os custos com a saúde que essa escolha acarreta, a escolha racional continua a ser o refrigerante, sobretudo porque a saúde é, em grande parte, uma externalidade, na medida em que a sua perda é suportada, maioritariamente, pela sociedade; seja pelo financiamento dos cuidados de saúde necessários ao seu restabelecimento; seja pelo pagamento duma pensão pela segurança social, ou doutros benefícios; seja em termos de anos de vida potencial perdidos. Além de que, para o cliente, importa mais o preço ali e naquele momento, do que as consequências, daí a anos, daquela escolha.

Portanto, o resultado prático desta promoção é promover uma escolha pouco saudável. O Burger King deveria também disponibilizar água (até poderia ser água da rede pública), paralelamente aos refrigerantes, na sua máquina dispensadora de bebidas, a fim de equilibrar as opções. Ou seja, do que estamos a falar é de criar «a oportunidade de realizar escolhas saudáveis» [2]. Não quer dizer que os clientes fossem todos beber água, por causa disso. Mas quer dizer, pelo menos, que escolher água ou um refrigerante seria, do ponto de vista da quantidade oferecida pelo mesmo preço, equivalente.

Não é saúde em todas as políticas, mas é a saúde em todos os aspectos da vida. Porque até nestas pequenas coisas há implicações para a saúde das pessoas.

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